Cronologia
| Século XVI | Próximo ao local, ocorre a Batalha de Uruçumirim (1567) |
| Século XVII | Numa pequena gruta do local, inicia-se a devoção a Nossa Senhora da Glória (1608)
Edificação da primeira ermida (1670) |
| Século XVIII | Construção da igreja atual (a partir de 1714)
Oficialização da irmandade |
| Século XIX | Membros da família real e imperial passam a frequentar a igreja |
O Outeiro da Glória chamava-se antigamente ‘Morro do Leripe’, e ficava muito próximo do local onde ocorreu a Batalha de Uruçumirim, um confronto ocorrido no ano de 1567 entre portugueses, franceses, e índios aliados de ambas as partes. Na ocasião, saíram vitoriosos os portugueses e seus aliados - os índios teminimós, que eram liderados pelo cacique Araribóia - e ficaram derrotados os franceses e os índios tamoios. Na mesma ocasião, o líder português Estácio de Sá foi ferido com uma flechada no rosto, motivo pelo qual veio a falecer dias depois. Porém, não obstante sua morte, o embate deu resultado e encerrou definitivamente o domínio francês na região.
Foi em uma gruta nesse ‘Morro do Leripe’ que, no ano de 1608, alguns devotos passaram a venerar a Virgem Maria sob a invocação de ‘Nossa Senhora da Glória‘ - possivelmente em alusão aos fatos anteriormente ocorridos nesse local.
Décadas depois (ano de 1670), um português chamado Antônio Caminha edificou uma pequena ermida sobre o topo daquele outeiro, e junto dela construiu também algumas dependências, onde passou a morar de forma reclusa. No local também havia instalações destinadas a abrigar peregrinos que para lá se dirigiam, a fim de pagar promessas e rezar novenas, e consta que o mencionado Antônio Caminha permaneceu servindo devotamente no local por mais de quarenta anos, como uma espécie de ermitão.
Mais ou menos no início do século XVIII a doação de um terreno mais amplo por parte do capitão Cláudio Gurgel do Amaral permitiu uma campanha de reedificação da igreja - a ermida primitiva era feita de madeira e argila, e pretendia-se então fazer uma construção mais resistente, de pedra. No documento de doação ele menciona expressamente a Irmandade de Nossa Senhora da Glória, motivo pelo qual se infere que provavelmente já estaria constituída nessa época (muito embora o reconhecimento canônico ocorresse alguns anos mais tarde, em 1739).
Estima-se que a reconstrução da igreja tenha se iniciado entre 1714 e 1720. O projeto ficou a cargo de um militar, o Tenente-Coronel José Cardoso Ramalho, que havia sido nomeado por D. João V como Capitão de Infantaria da Capitania do Rio de Janeiro. Esse arquiteto projetou a igreja de uma forma bastante original, adotando características de edificações militares.
A título de ilustração, pode-se ver abaixo duas telas de Nicolas-Antoine Taunay retratando o outeiro e a igreja, de acordo com o aspecto do local em fins do século XVIII e início do século XIX.


A planta é constituída de dois prismas octogonais entrelaçados - em um formato semelhante a algumas fortificações da época - possuindo uma torre central, com um alpendre antes da portada principal. A escoadura das calhas, em formato de pequenos canhões, e a parte anterior da torre, em forma de guarita, também remetem ao estilo de fortificação.

Internamente a igreja é inteiramente circundada de azulejos, inclusive na sacristia, e seus três altares são esculpidos em cedro, sem verniz nem pintura.
Após a vinda de Dom João VI para o Brasil - mais especificamente após o casamento de seu herdeiro Dom Pedro - a igreja passou a receber visitas frequentes da Princesa Leopoldina, que era devota de Nossa Senhora da Glória. Décadas mais tarde, no reinado de Dom Pedro II, a irmandade foi alçada ao status de imperial, título que conserva até hoje. Atualmente, descendentes da Princesa Isabel permanecem fazendo parte dos quadros dessa confraria, participando de ofícios e determinadas festas.



Abaixo, a imagem da padroeira, Nossa Senhora da Glória.


Na primeira metade do século XX, durante o frenesi de ‘modernização’ do Rio, foi realizado um gigantesco aterro na região, o que fez com que o mar ficasse recuado em cerca de duzentos metros em relação à sua posição original. Na foto abaixo, tirada antes do aterramento (festa de inauguração da estátua de Pedro Álvares Cabral, no ano de 1900), pode-se ter uma noção de até onde chegavam as águas.

Não obstante as numerosas alterações ocorridas no entorno, é inegável que essa graciosa igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro continua sendo um dos mais belos cartões postais do Brasil.

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REFERÊNCIAS:
- ALENCAR, José de. O Ermitão da Glória. In Alfarrábios. Rio de Janeiro, 1873. Obra em domínio público. Disponível em: http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/_documents/0006-01373.html.
– BAZIN, German, L’Arquitecture Religieuse Baroque au Brésil, Tome II, Paris: Librairie Plon, 1958
– CARVALHO, Benjamim de A., Igrejas Barrocas do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S.A., 1961
CERQUEIRA, Bruno da Silva Antunes de, Outeiro da Glória e Glória do Outeiro: brevíssima história de uma das mais antigas e importantes confrarias marianas do Brasil. Disponível em: http://outeirodagloria.org.br/historia/historia-irmandade-cerqueira/
-Dornelles Facó, Anne (coord.), Guia das Igrejas Históricas da Cidade do Rio de Janeiro, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Especial de Projetos Especiais, 1997
-TELLES, Augusto C. da Silva. Nossa Senhora da Glória do Outeiro. Rio de Janeiro: Agir Editora, 1969.
-TIRAPELLI, Percival, Igrejas Barrocas do Brasil, São Paulo: Metalivros, 2008
Site oficial: www.outeirodagloria.org.br
A título de contribuição, onde está informado que os filhos de Dom João - Dona Maria da Glória e Dom Pedro I - foram batizados nessa igreja, isso está incorreto. Dom Pedro I foi, sim, filho de Dom João VI, mas já veio quase adolescente para o Rio de Janeiro e, assim, é de se acreditar que tenha sido batizado em Portugal, onde nasceu. Dona Maria da Glória, sim, filha de Dom Pedro I e da imperatriz Leopoldina, é que foi batizada na igreja da Glória.
Sigam com o belíssimo trabalho!
Deus abençoe!
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Agradecemos a informação, e já procedemos à retificação. Essa questão sobre os filhos de Dom João estava em um dos livros consultados, mas realmente, relendo o texto de Bruno da Silva Antunes de Cerqueira (indicado acima ao final do texto), ele menciona a existência dessa confusão:
“Há erro grave em afirmar, como o fizeram não poucos autores ao longo do séc. XX, que na Igreja da IINSGO foram batizados os príncipes de Bragança, durante o XIX. O lapso histórico é reproduzido por muitos pesquisadores que repetiram terem sido os netos e bisnetos de D. João VI consagrados à Virgem da Glória, o que procede plenamente. Mas daí a terem recebido o Sacramento do Batismo vai uma distância tremenda. Todos os batizados dos príncipes do Brasil oitocentista ocorreram na Sé-Catedral do Rio de Janeiro, que foi a Igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo”
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