Imaculada Conceição

Devido à grande quantidade de igrejas brasileiras dedicadas à Imaculada Conceição, é conveniente que tal título de Maria seja explicado de uma forma mais detalhada.

imaculada conceição

Detalhe do altar da antiga Fazenda São Matias (séc. XVIII), em Ilhabela (Museu de Arte Sacra de São Paulo)

Conforme a doutrina católica – construída com base na Revelação bíblica – o ser humano foi criado numa situação de inocência e amizade para com Deus.

“Nele tudo era perfeito; todas as forças da natureza humana estavam orientadas para o bem, sem que a dor e as necessidades da vida, nem o temor da morte, lhe causassem qualquer incômodo. Sua inteligência era submissa a Deus, as faculdades inferiores serviam à inteligência, e o corpo servia à alma. A natureza exterior, por especial intervenção da Providência, era a dócil servidora do homem. O demônio podia tentá-lo, como o fez, mas não tinha nenhum império sobre ele. O centro desse magnífico edifício era a graça santificante, da qual todos os outros dons não eram senão um corolário.”

No entanto, sendo Deus a própria Justiça, não entregaria privilégios e felicidade sem que houvesse ‘mérito’ – o merecimento. Assim, deu ao homem a liberdade, e submeteu nossos primeiros pais a uma prova. O resultado foi uma queda – pecado original.

Com o pecado de Adão, surgiu entre nós o que conhecemos pelo ‘mal moral’, e para saber os efeitos disso na natureza humana, basta pegar a descrição acima – do homem sem pecado – e invertê-la. Com isso, compreende-se as maldades aparentemente inexplicáveis no mundo.

Inicialmente, uma pergunta que fica: Não seria injustiça condenar toda a descendência a sofrer as consequências do pecado de seus pais? Ora, a doutrina do pecado original pode ser exemplificada, por exemplo, com a figura de uma criança que nasce em um país em guerra. Seus pais ou avós iniciaram o conflito, e ela, por mais que não tenha colaborado para criar aquela situação, terá de crescer enfrentando todas as dificuldades decorrentes dos atos de seus antepassados. Não se trata, veja-se bem, de estar pagando pela culpa individual dos antepassados, e sim pela culpa coletiva.

Da mesma forma, conforme é relatado na revelação bíblica, Adão e Eva eram todo o gênero humano, e, assim, toda a humanidade existente prevaricou. Se um tivesse falhado e o outro não, a história poderia ser outra. Por isso então o ‘pecado original’ marca de forma hereditária a todos. A esse respeito, já dizia o profeta Davi: “Eis que nasci na culpa, minha mãe concebeu-me no pecado” (Salmos 50,7).

Essa condição, porém, fez com que a humanidade fosse objeto de um inimaginável ato de amor: a Redenção. Sabe-se que Cristo, sendo Deus, e portanto, vítima da desobediência humana, assumiu a natureza humana, por amor gratuito. Com isso, obteve os méritos para que a humanidade fosse reconciliada com seu Criador.

Portanto, essa não é uma história na qual há uma guerra entre homens e uma divindade – como costumamos ver na mitologia pagã. Trata-se de um Deus que desce amorosamente até o filho desviado, e o resgata.

Pelo fato de ser uma pessoa divina, Cristo obviamente não possuía nenhuma mácula. O Salvador de forma alguma carregaria o defeito que ele próprio veio corrigir. Assim, Jesus possuía em sua natureza humana toda a plenitude de dons que Adão possuía antes da queda, e não sofria as consequências do pecado original.

E, no caso de Maria, por uma questão de lógica, seria um contrassenso que a medianeira da reconciliação entre Deus e a humanidade padecesse, ainda que por um instante, dessa incompatibilidade. Afinal, o sangue de Jesus poderia brotar de um manancial manchado?

Para o povo nunca foi difícil entender que Maria, desde o primeiro minuto de sua existência, foi concebida sem o pecado original. Nos primeiros séculos da Igreja, era uma crença tranquila, chegando inclusive a ser celebrada oficialmente no Oriente. Mas, com o desenvolvimento da Teologia, a situação entrou numa fase de controvérsias que demorou séculos até que se chegasse a uma resposta. Apesar de serem devotos ardorosos da Virgem, figuras eminentes como São Tomás de Aquino, São Boaventura e São Bernardo de Claraval não conseguiram encontrar uma solução para essa questão – Maria era uma pessoa humana, e como tal, deveria também ser redimida por Cristo, e salva do pecado pelos méritos dele. Afinal de contas, Cristo redimiu a todo o Universo, inclusive ela.

O povo não esperou uma conclusão oficial da Igreja, e, mais ou menos a partir da Idade Média, eram cada vez mais comuns as referências a Maria enquanto isenta da culpa original. São Francisco de Assis era um ardoroso defensor dessa tese, e seus discípulos franciscanos espalharam essa devoção por todos os lugares onde foram. O filósofo Duns Scot também defendeu esse entendimento, em debates na Universidade de Sorbonne.

Os séculos foram se passando, e a polêmica não parecia acabar. Os cursos de teologia das universidades de Oxford, Cambridge e Paris seguiam defendendo a tese da concepção imaculada de Maria, que chegou inclusive a ser debatida no Concílio de Trento (1545-1563). Na ocasião não foi definida nenhuma doutrina, mas, ao menos, também não se autorizou a dizer que era tese inválida.

E Portugal seguia as tendências gerais. Em 1646, o rei Dom João IV proclamou Nossa Senhora da Imaculada Conceição padroeira de todos os domínios portugueses.

Inscrição na entrada da igreja de Nossa Senhora de Montserrat (Salvador, Séc. XVII)

Inscrição na entrada da igreja de Nossa Senhora de Montserrat (Salvador, Bahia, Séc. XVII)

No Brasil inúmeras igrejas foram construídas em honra à Imaculada Conceição, sobretudo a partir do século XVIII. Nas imagens dessa invocação, podemos ver que Maria é sempre representada conforme a seguinte narração bíblica: ” Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas” (Ap 12,1).

Imaculada Conceição - Mosteiro da Luz, São Paulo (século XVIII)

Imaculada Conceição – Mosteiro da Luz, São Paulo (século XVIII)

No século XVIII, a imagem encontrada por pescadores no Rio Paraíba, e que posteriormente tornou-se a padroeira do Brasil, também era da Imaculada Conceição. Assim, passou a ser chamada de Nossa Senhora da Imaculada Conceição Aparecida – por ter ‘aparecido’ nas águas.

A harmonização completa entre a teologia e a devoção popular viria somente no século XIX, quando o papa Pio IX, após consultar mais de 750 bispos e religiosos, proclamou a Imaculada Conceição como um dogma, por meio da bula Ineffabilis Deus (de 08 de dezembro 1854). Isso significa que, se antes o assunto era controvertido, após sua transformação em dogma, tornou-se doutrina vinculante, e se algum católico pensar de forma diferente é considerado membro separado da unidade da Igreja e um náufrago da fé.

O raciocínio pelo qual foi encontrada a resposta foi o seguinte: Maria foi previamente preservada da culpa original em vista dos méritos futuros de seu divino Filho. Assim, por uma redenção preventiva, ela não recebeu as consequências do pecado original ao ser concebida. Ou seja, ela foi sim redimida por Cristo, mas em momento anterior à sua concepção. Para pessoas do mundo jurídico isso é mais fácil de compreender, pela semelhança com um ‘habeas corpus preventivo‘ – um salvo-conduto, uma garantia de liberdade que alguém obtém antes de ser preso.

Assim, pode-se dizer que, por ter sido concebida sem pecado original, Maria sempre teve a tendência natural a praticar o bem – sem contar os dons sobrenaturais que possuiu em função disso. Ela sempre foi, desde o primeiro instante de sua existência, cheia de graça, como o próprio anjo Gabriel afirmou (Lc. 1, 28).

Quatro anos após a proclamação dessa bula papal, nos arredores de Lourdes (França), uma camponesa, completamente alheia aos acontecimentos teológicos da Igreja, viu uma senhora numa gruta. Ao perguntar quem ela era, recebeu como resposta: “Eu sou a Imaculada Conceição“.

Nossa Senhora e Santa Bernadette, na gruta de Lourdes - vitral da Basílica da Imaculada Conceição, Rio de Janeiro

Nossa Senhora e Santa Bernadette, na gruta de Lourdes – vitral da Basílica da Imaculada Conceição, Rio de Janeiro

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Referências

– Campana, Emile, Marie dans le Dogme Catholique, J-M Soubiron, Montrejéau, 1913

– Dias, João S. Clá, Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado, vol. II, . São Paulo, Edições Loyola, 2011

– João Paulo II, Homilia do 150º aniversário da definição dogmática da Imaculada Conceição

– Julio Maria, Pe., O catolicismo no Brasil, Memória Histórica, São Paulo: Costallat, 1950

– Pio IX, Bula Ineffabilis Deus, de 08/12/1854