Matriz de São José – Taquari, Rio Grande do Sul

A cidade gaúcha de Taquari teve seus primórdios quando a Coroa Portuguesa enviou açorianos para povoarem as terras da região sul do país. Não se sabe a data exata do início do povoamento, mas consta que a Freguesia de São José de Taquari fora criada no ano de 1764.

Para servir como matriz dessa freguesia, decidiu-se erigir uma digna igreja, cujo projeto foi de autoria do Brigadeiro José custódio de Sá e Faria (1765). No entanto, a construção desse templo foi marcada pela grande dificuldade na obtenção de recursos.

As obras começaram somente após 1772, por falta de material. Após algum tempo, foram interrompidas e retomadas somente em 1799, quando o governador da província, Sebastião Xavier da Veiga Cabral, se impacientou com a demora e determinou que o Sargento-Mor de Dragões José de Castro de Morais se organizasse com o vigário para estimular o povo a contribuir para as obras.

A igreja foi terminada ao longo do século XIX, e o ultimo acréscimo realizado foi a construção da torre, em 1899.

Em fins do século XIX, essa matriz contava com o altar mor e mais quatro altares laterais, entalhados em madeira e ornados de belas imagens de santos.

Entretanto, no início do século XX a igreja passou por reformas que acabaram por tirar parte de sua antiga decoração.

O historiador Athos Damasceno se indignou com o resultado dessas modificações, e escreveu um eloquente protesto, que reproduzimos aqui sobretudo por ser também aplicável a tantas outras reformas realizadas Brasil afora:

São conhecidas as frequentes reformas que nossas igrejas sofrem (sofrem é a palavra exata…) – reformas que as mutilam e desfiguram precisamente no que possuem de mais valioso, como seus altares e outras peças de escultura em madeira, que se desmontam e removem, sem o menor escrúpulo.

Prova disso é a própria matriz de Taquari, de que estamos nos ocupando. Fotografias de várias épocas atestam e documentam essas deploráveis reformas, mandadas executar por pessoas destituídas não só da mais ligeira noção de arte como do mínimo senso de responsabilidade. No caso da Igreja de São José, e para não falar senão dos altares, dois deles já foram desmontados, sendo seus lugares preenchidos por duas capelinhas de discutível feição gótica que destoam inteiramente de sua decoração geral, de estilo barroco, sobrecarregado sem dúvida, mas portador de autenticidade irrecusável. Também o altar mor foi atingido, não apenas em alguns ornatos, mas ainda na imagem de São José, antigo e precioso exemplar da torêutica portuguesa do século XVIII, doação do Conde de Cunha, deslocada para a sacristia e substituída por outra imagem de gesso, de produção em série. Pena que não saibamos a quem ocorreu a ideia edificante. Deixaríamos aqui, por extenso, o nome do autor desse contrassenso, dessa heresia, dessa dupla ofensa à Religião e à Arte.

Apesar dessas modificações que indignaram o historiador, deve-se esclarecer que essa igreja mantém ainda um ambiente piedoso e acolhedor, o que já é algo louvável em um país onde, sob o pretexto de ‘modernização’, tantas preciosidades históricas foram inteiramente derrubadas ou substituídas por outras de caráter desleixado e até mesmo de mau gosto. Por isso, vale a pena visitar essa simpática igreja matriz, relíquia dos velhos tempos da civilização gaúcha.

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Referências:

– Damasceno, Athos, Artes Plásticas no Rio Grande do Sul (1755-1900). Porto Alegre:Editora Globo, 1971

 

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