Matriz de Nossa Senhora da Imaculada Conceição – Serro, Minas Gerais

A cidade de Serro – situada na região da nascente do Rio Jequitinhonha, e próxima ao belíssimo conjunto montanhoso do Pico do Itambé – surgiu em princípios do século XVIII, com o nome de “Arraial do Ribeirão das Minas de Santo Antônio do Bom Retiro do Serro do Frio”. Ao longo dos anos, passou a ser conhecida somente como ‘Serro Frio’, e posteriormente ‘Vila do Príncipe’, e vivia em função da lavra de ouro nos córregos, e, mais posteriormente, da extração de diamante nos arredores.

Acerca de sua igreja matriz, um detalhado histórico é apresentado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN):

“Ao que indica, a antiga Vila do Príncipe, atual cidade do Serro, teve duas matrizes anteriores à atual. A primeira delas era uma simples capelinha coberta de palha e dedicada a Santo Antônio. Provavelmente, por volta de 1713 já estava em construção a segunda igreja que serviria de matriz, fato que por certo justificou a elevação, através de carta régia datada de 26 de fevereiro de 1724, da paróquia à categoria de colativa.

“Desta segunda matriz tem-se notícias através de alguns documentos de 1725 e 1737, que a ela se referem sem maiores comentários, apenas indicando a existência de um adro agregado à sua planta.

“A atual matriz é, portanto, a terceira que ali se construiu. Sua edificação foi iniciada posteriormente ao ano de 1776, ano em que o vigário Simão Pacheco deixa em testamento tudo o que lhe era devido em côngruas para se construir a nova matriz. Em 1796 a igreja já mostrava sinais de desgaste e deterioração pois, em 14 de julho daquele ano, os irmãos do Santíssimo Sacramento apontavam a necessidade da reedificação da capela-mor – em estado de ruína – bem como da nave. Registros efetuados no Livro de Receita da citada irmandade, atestam que entre os anos de 1796 a 1799, muitos materiais foram adquiridos para a obra e vários pagamentos foram efetuados a Manuel Fernandes Leão, embora não tenham sido especificados os trabalhos ali realizados.

“Concomitantemente à construção do templo eram realizados os trabalhos de decoração interna. Alguns nomes foram resguardados, permitindo-se, assim, conhecer alguns artistas que ali trabalharam: em 16 de dezembro de 1792 foi ajustado com Bartolomeu Pereira Diniz, a confecção do retábulo da capela-mor, trabalho este que ainda não estava concluído em dezembro de 1795. Nos anos de 1799 a 1800, foram efetuados diversos pagamentos a Joaquim Gonçalves de Aguiar por tornear as colunas para o retábulo novo da Igreja Matriz, aos entalhadores Bento André Pires e Francisco Pereira Diniz e ao pintor e dourador Manuel Fernandes Leão, que entre 1807/1808 seria encarregado da pintura do “cofre de exposição do Senhor no Trono” e do “Sudário e Verônica”, bem como do risco para modelo das portas da igreja.

“Certamente em 1802, a matriz já estava em condições de servir ao culto pois, neste ano, para ali foi trasladado o Santíssimo Sacramento, depositado provisoriamente na hoje demolida Igreja da Purificação. Entretanto, muito ainda restava a fazer pois segundo relato de Dom Frei José da Santíssima Trindade, bispo de Mariana, nos registros que fez em seu livro de Visitas Pastorais (1821/1826), a matriz de Nossa Senhora da Conceição da Vila do Príncipe se encontrava desprovida de tudo, com todos os retábulos por terminar e apenas uma imagem, a da padroeira, no trono do altar-mor, sendo que os demais altares tinham as imagens dos oragos pintadas em tábuas lisas (informação datada de 27 de agosto de 1821). Quatro anos depois, segundo consta no citado livro, já se trabalhava na conclusão dos retábulos, faltando ainda o forro do corpo da igreja. O assoalho e campas encontravam-se em condições precárias e o adro e cemitério ainda por fazer. Já em 1843, através do Termo de Concordata datado de 26 de março, foi contratado o empreiteiro Severo Sebastião de Gouveia que, seguindo o plano e risco do arquiteto João Jorge Mayer, encarregou-se da restauração do frontispício e das torres. Em 1850, o presidente da Província José Ricardo de Sá Rego registrou em seu relatório as condições precárias da matriz, fazendo ressalva à capela-mor, supostamente edificada em época posterior. Duas placas de bronze, fixadas em cada lado da porta principal, trazem inscritas as datas de 1872 e 1877 que, provavelmente, referem-se à época de obras ali realizadas.

“Apesar de construída no último quartel do século XVIII, pertence ao partido tradicional das matrizes mineiras construídas na primeira metade dos setecentos, incluindo, apenas, duas particularidades características da segunda metade daquele século: torres destacadas em relação ao corpo da igreja e a insinuação de paredes curvas nos anexos laterais ao longo da nave. A sua estrutura é em madeira e taipa, com reforços posteriores em alvenaria de tijolos e cimento, cunhais e enquadramento dos vãos em madeira, vergas em arco abatido e cobertura em duas águas. A fachada, restaurada em meados do século XIX com a construção de alicerces em pedra, apresenta torres quadrangulares, com cobertura em quatro águas, com duas portas-sacadas inseridas, empena lisa e óculo de formato caprichoso. No frontispício estão três portas-sacadas com parapeitos de ferro batido. Internamente apresenta pisos em campa e tabuado largo, forros abobadados em tabuado liso com pinturas decorativas, sendo que a da nave, datada de 1888, é atribuída a Manuel Antônio da Fonseca. O retábulo-mor, como já se referiu anteriormente, de autoria dos irmãos Bartolomeu e Francisco Pereira Diniz, conhecido como Chico Entalhador, demonstra em sua estrutura e ornamentação, nítida inspiração do altar-mor da igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto, de autoria de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Os quatro altares laterais, em estilo rococó, são menos elaborados e estão sob a invocação de Nossa Senhora do Rosário, Ecce Homo e Sant’Ana.”

O naturalista francês Auguste de Saint Hilaire, quando esteve no local, anotou que essa matriz era “uma das mais belas e grandes que ele vira em toda a Província de Minas”.

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Paulo Kruger Mourão aponta a curiosidade de que, embora as rochas sejam abundantes na região, elas não foram usadas em praticamente nenhuma igreja daquelas paragens – ao contrário do que se vê nas regiões de Ouro Preto e São João del Rei. Assim, apesar de ser um templo de grandes proporções, a matriz de Serro também seguiu esse costume, sendo construída primordialmente em madeira e taipa. No seu exterior, guarda uma simplicidade que remete aos mais antigos arraiais mineiros.

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Quanto ao orago, observa-se que na região também foi seguido o costume de muitas outras cidades antigas de Minas: a população consagrou sua matriz à Nossa Senhora da Imaculada Conceição, em homenagem a Maria enquanto nascida sem a mancha do pecado original. Por essa e outras, constata-se que essa invocação era utilizada pelo povo muito antes da Igreja reconhecer o assunto como dogma, o que veio a ocorrer somente em meados do século XIX.

Por fim, vale lembrar que a cidade de Serro encontra-se em uma das regiões mais belas e preservadas do estado de Minas Gerais. Por estar distante dos grandes centros urbanos e não ser tão visada por turistas, o estilo de vida de seus moradores ainda guarda muito do autêntico e tranquilo espírito mineiro interiorano. Além disso, no seu entorno há pequenos distritos, muitos deles centenários, que são cercados de história e belezas naturais. Após presenciar o crescimento desordenado se alastrando cada vez mais sobre tantas cidades históricas, não é exagero dizer que, atualmente, Serro está resguardando muito melhor a ‘alma mineira’ do outras cidades mais famosas, como Ouro Preto, Mariana e Tiradentes.

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Matriz da Imaculada Conceição, vista desde a igreja do Bom Jesus de Matozinhos

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REFERÊNCIAS:

– MOURÃO, Paulo Krüger Correa, As igrejas setecentistas de Minas, Belo Horizonte: Itatiaia, 1986

– VASCONCELLOS, Diogo. História Antiga das Minas Gerais, Itatiaia, 1974

Portal do IPHAN

Arquidiocese de Diamantina

 

 

 

 

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