Matriz de São Caetano – Distrito de Monsenhor Horta – Mariana, Minas Gerais

Uma das mais belas – e pouco conhecidas – matrizes mineiras não está em uma das grandes cidades históricas, e sim num pequeno distrito localizado à beira do Ribeirão do Carmo – o mesmo que passa pela cidade de Mariana. Trata-se da Matriz de São Caetano, do distrito de Monsenhor Horta (Mariana, MG).

História do distrito

Esse povoamento surgiu a partir de 1697, quando o bandeirante Salvador Fernandes Furtado de Mendonça saiu da região paulista de Taubaté e adentrou pelos sertões de Minas. Era um devoto fervoroso, e tinha permissão do bispo do Rio de Janeiro para levar consigo um altar portátil, bem como para edificar capelas “onde quer que fosse necessário para se administrar todos os sacramentos aos católicos que o procurassem naqueles desertos”.

Após algum tempo (1703), instalou-se com toda a família às margens do Ribeirão do Carmo, e edificou uma capela particular dedicada a Nossa Senhora de Loreto, onde um padre responsável pela região passou a celebrar missas, que eram frequentadas pelos moradores da região. Apesar de encontrarem ouro, consta que a vida era extremamente dura para todos moradores daquelas redondezas, havendo épocas em que faltavam inclusive alimentos.

O orago

Com o passar dos anos, surgiu um povoado ao redor da capela de Salvador Fernandes, e esse lugarejo recebeu o nome de São Caetano do Rio do Carmo, em homenagem ao padre italiano Gaetano de Thiene, que havia sido canonizado em 1671, e que era fundador da ordem dos Clérigos Regulares da Divina Providência, também conhecidos como ‘Teatinos’. A Divina Providência possui um sentido pelo qual aqueles que seguem a Deus nunca são abandonados em suas necessidades, e, por ter propagado essa devoção, São Caetano passou a ser também considerado intercessor perante Deus para os administradores e demais pessoas que necessitavam de provimento e auxílio. Considerando o contexto de dificuldades suportadas pelos primeiros moradores daquele rincão mineiro, fica mais claro entender o provável sentido de São Caetano ter sido escolhido como padroeiro daquela igreja.

Sobre a construção da matriz

Sobre a igreja matriz, um documento datado de 1730 informa que  uma irmandade decidiu erguê-la pelo preço de 3.800 oitavas de ouro. O documento não diz qual irmandade seria, mas se formos considerar o costume observado na construção de quase todas as matrizes mineiras, é bem provável que tenha sido a Irmandade do Santíssimo Sacramento. O mesmo documento menciona três artistas que teriam trabalhado nas obras, sem entretanto especificar o que cada um fez: são eles o ferreiro João Pereira Borges, o mestre carpinteiro Luis Antonio Pereira, e Manuel Martins.

A igreja ainda estava inacabada quando, em 1742, foi erigida uma freguesia (paróquia) para o local. Segundo o Cônego Raimundo Trindade, um alvará do rei de Portugal datado de 1752 deu-lhe natureza de ‘colatina’ (com um vigário fixo).

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Externamente a matriz é simples, com aspecto robusto, e sem muitos adereços decorativos, excetuado uma pequena cimalha esculpida acima da portada, com data de 1797.

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Contrastando com a simplicidade externa, o interior dessa igreja possui cinco belíssimos retábulos e dois púlpitos, de autoria indefinida, e que seguem linhas joaninas. Um documento de 1775 informa despesas com douramento e pintura, dando a entender que já estariam finalizados nessa época. O altar-mor possui dossel e arquivoltas, e também colunas torsas com ornatos da fauna e flora. Os altares colaterais, em harmonia com o retábulo principal, possuem colunas torsas, várias conchas, além do trono em forma de cântaro. O arco cruzeiro também é profusamente trabalhado, com talha semelhante à das paredes da capela mor.

Detalhe do coroamento do retábulo da capela mor

Coroamento do altar colateral do Sagrado Coração de Jesus

Coroamento do altar colateral de Nossa Senhora

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Essa igreja passou por duas únicas reformas pontuais, a primeira delas ocorrendo em 1823, a pedido de Dom José da Santíssima Trindade, sendo custeada por fazendeiros da região, e depois somente em 1983, por conta do IPHAN e da Prefeitura. Essas obras fizeram reparos na estrutura da capela mor, telhados e forros. Alguns anos atrás, houve um desprendimento de parte do revestimento do arco cruzeiro, que foi recolocado no local pelo restaurador Rafael da Cruz.

Em 1943 o distrito de São Caetano foi rebatizado com o nome de Monsenhor Horta, em homenagem ao Monsenhor José Silvério Horta

No interior da matriz, ainda encontra-se sepultado o fundador do local, o bandeirante Salvador Fernandes Furtado de Mendonça.

A respeito dessa matriz, Paulo Krüger Mourão assim se expressa:

“Admira-se, nessa interessante matriz, a relativa riqueza do templo em comparação com a pobreza do local em que é edificada, denotando este fato os sacrifícios que as populações de outrora faziam para a ereção da casa do Senhor.”

Uma nota triste no histórico dessa igreja – e que ainda é uma chaga aberta na população local – ocorreu quando o templo foi saqueado por ladrões durante uma noite do ano de 2004. Foram levadas dez imagens sagradas e outros objetos destinados ao culto. Dias depois, uma das imagens foi encontrada pela Polícia Federal no momento em que era embarcada em um navio com destino à Europa. Outras duas foram encontradas quando a quadrilha foi presa, e sete delas ainda permanecem desaparecidas… Seus nichos estão ocupados por pequenas imagens contemporâneas, à espera do momento em que, seja por uma ação da graça divina, ou pelo rigor da lei, os criminosos as devolvam para onde nunca deveriam ter saído.

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Agradecimentos especiais ao restaurador Rafael César da Cruz e à Dona Maria José de Souza (Dona Marizica), que contribuíram para realização desta matéria.

Colaborou: Alexandre Mendes de Almeida

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REFERÊNCIAS:

 

– MOURÃO, Paulo Krüger Correa, As igrejas setecentistas de Minas, Belo Horizonte: Itatiaia, 1986

– VASCONCELLOS, Diogo. História Antiga das Minas Gerais, Itatiaia, 1974

– IEPHA/MG. Superintendência de Documentação Histórica. Arquivo. SPHAN-próMemória. Matriz de São Caetano Monsenhor Horta. 1985.

HPIP

Conselho Patrimonial de Mariana

 

Notícia sobre o furto em Monsenhor Horta

Notícia sobre a apreensão de bens roubados 1 

Notícia sobre a apreensão de bens roubados 2

 Notícia sobre o desmantelamento da quadrilha

IEPHA – MG – Peças apreendidas pela polícia

 

 

 

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