Igreja de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte – Rio de Janeiro, RJ

Essa igreja, localizada na região mais central da cidade do Rio de Janeiro, foi edificada no local onde havia uma pequena ermida pertencente à Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, a qual possuía dependências destinadas a hospedar religiosos. Era o hospício (sinônimo de hospedagem), que inclusive deu nome à antiga rua que ali passava.

A irmandade dos homens pardos

Havia na cidade a Irmandade de Nossa Senhora da Conceição dos Homens Pardos, que era constituída por “irmãos exclusivamente pardos libertos, homens trabalhadores, cheios de fé, que se dedicavam com grande carinho à causa de sua agremiação, lutando pelo seu progresso”. Ocorre que, no ano de 1721, essa irmandade precisou abrir mão de seu altar localizado na antiga Sé (Igreja de São Sebastião do Morro do Castelo), uma vez que aquela igreja estava ameaçando ruir. Assim, por disposição do governador Luiz Vahia Monteiro, instalaram-se na pequena ermida da Rua do Hospício, pagando por ela uma indenização aos terceiros de São Francisco.

A irmandade da Boa Morte e sua insólita mudança de casa

Alguns anos depois, uma segunda irmandade – dedicada a Nossa Senhora da Assunção e Boa Morte, e que existia desde 1663 no Convento do Carmo – veio bater à porta da ermida. Eles haviam se desentendido com os frades carmelitas, e decidiram por continuar suas atividades em outra igreja. O historiador Augusto Maurício, em seu livro sobre as igrejas cariocas, assim narra como foi essa mudança:

   “O grupo dissidente estabeleceu o plano para a mudança em absoluto segredo. Os religiosos nem levemente o suspeitaram e, por isso, tudo foi levado a efeito conforme havia sido previsto.
   Sob o pretexto de levar a conserto, começaram retirando alguns ornamentos e objetos de prata que lhes pertenciam, os quais passaram a ser guardados em lugar ignorado. O que se afigurava difícil, no entanto, era a trasladação da imagem, sem que se apercebessem os frades. Não era, todavia, impossível, e como veremos, o caso chegou a revestir-se de grande escândalo, mas o intento foi,’ afinal, conseguido.
   O fato teve lugar na data da festa da Virgem. Era noite. Extensa procissão percorria as ruas, tendo saido do Convento dos Carmelitas, sendo a imagem conduzida pelos irmãos da Boa Morte. Ao chegar o préstito à rua da Quitanda, esquina da do Rosário, em lugar de continuarem por aquela rua, tomaram o caminho desta última e, quando chegaram nas proximidades da Capela da Conceição, estugaram o passo e nela entraram com a imagem, inopinadamente, fechando com estrépito a porta. A procissão foi interrompida, havendo “tumulto, contenda, velas quebradas, hábitos rotos, intervindo a fôrça armada, mas a imagem ficou”.
   Dessa forma algo pitoresca passaram a residir sob o mesmo teto, embora com vida completamente independente, as duas agremiações.”

Estando ali instaladas, as duas irmandades decidiram construir, a partir de 1735, uma igreja maior e mais bela, cujo projeto ficou a cargo de um engenheiro militar português, o Brigadeiro José Fernandes Pinto Alpoim. A pedra fundamental foi colocada em 25 de março daquele ano, festa da Anunciação do Anjo a Maria.

As obras prosseguiram, sustentadas sobretudo por esmolas e doações espontâneas, e tudo indicava que a igreja ficaria pronta em um curto espaço de tempo.

Irmandades em pé de guerra

No entanto, as duas irmandades começaram a se desentender, e isso gerou uma série de atritos e disputas, que são novamente descritas por Maurício:

“Brigaram por causa do órgão que fôra doado por Felix Martins Rates, à Conceição, e a Boa Morte dêle queria utilizar-se; discutiram porque os Pardos reservavam para si o direito sôbre o sino da capela; e até, certa vez, chegaram a disputar o altar para a realização de uma cerimônia religiosa, de cuja contenda resultou sair ferido por um castiçal, que lhe fôra arremessado por um irmão da Boa Morte, o tesoureiro da Conceição! “

Ao que parece, as intrigas duraram durante quase seis décadas, vindo a terminar somente em 1820, quando, após uma acalorada assembleia que durou dois dias inteiros, concordaram em unir as duas irmandades em uma só. Assim, surgiu a “Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte“. Uma grande procissão, acompanhada por grande público e mais de sessenta padres, comemorou a união das duas confrarias.

Sobre a construção da igreja

Quanto ao templo em si, suas obras, que andaram lentas, foram finalizadas somente em meados do século XIX. Vista do alto, a igreja apresenta planta em forma de cruz latina, possuindo uma nave principal e duas naves laterais. O espaço do transepto (nave transversal à principal) possui forma octogonal e uma cúpula.

O retábulo do altar-mor foi talhado pelo célebre Mestre Valentim, possuindo um crucifixo em seu ponto mais alto, e logo acima da mesa do altar reina uma bela imagem da Imaculada Conceição.  Os altares laterais são obra de Manoel Francisco dos Santos Deveza – estes últimos foram feitos já no século XIX, após a junção das irmandades. O altar de Nossa Senhora da Assunção e Boa Morte encontra-se do lado direito do transepto.

Devido à abertura da Avenida Rio Branco, ocorrida em princípios do século XX, a igreja teve seu espaço externo reduzido, tendo sido suprimidas as catacumbas e uma escadaria do campanário. O portal, de autoria de Mestre Valentim, possui os dizeres em latim “Janua Coeli” (Porta do Céu) e é um convite à visita neste templo que atualmente é um pequeno oásis de paz no agitado centro carioca.

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REFERÊNCIAS:

-FACÓ, Anne Dornelles (coord.), Guia das Igrejas Históricas da Cidade do Rio de Janeiro, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Especial de Projetos Especiais, 1997

– MAURÍCIO, Augusto. Templos Históricos do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Laemmert, 1946, p. 151 a 157

 

 

 

 

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