Matriz de Nossa Senhora do Rosário do Sumidouro – Distrito de Padre Viegas – Mariana, Minas Gerais

A cidade de Mariana foi a primeira vila de Minas Gerais, tendo sido alçada à essa condição no ano de 1711, com o nome de Vila do Ribeirão de Nossa Senhora do Carmo. No seu entorno, diversos pequenos povoados também surgiram, sempre em regiões onde se encontrava alguma quantidade de ouro, ou onde se produziam alimentos. Dentre esses pequenos arraiais, encontrava-se aquele conhecido como ‘Sumidouro’, que teria surgido por volta de 1705, após ali ter se instalado o bandeirante Antônio Lopes Chaves.

Para a explicação do nome ‘Sumidouro’, além do significado mais conhecido (um ponto onde um curso d’água entra para o subsolo) há também outras versões contadas entre os moradores, sendo que a mais divulgada é a de que o ouro ali encontrado era de excelente qualidade – o ‘sumo do ouro’, ou ‘sumo d’ouro’. Outros populares preferem dizer que é devido ao fato do ouro ter durado pouco, e depois desaparecido por completo – a ‘sumida’ do ouro.

Seja qual for o significado, o fato é que o povoado se destacou principalmente por ali ter existido um colégio, fundado por Manuel da Cunha Osório, em 1742, e que ficou conhecido como Colégio Osório, Colégio dos Padres Osório, ou Colégio dos Osórios. Dois filhos de Manuel Osório, que eram padres, foram professores nesse colégio, juntamente com outros sacerdotes docentes. O estabelecimento ficava em um casarão, e chegou a abrigar cerca de 250 alunos, que aprendiam, dentre outras matérias, Língua Latina e Poética. Um dos alunos dessa escola foi Joaquim José Viegas de Menezes, que posteriormente foi ordenado padre (Padre Viegas). Quando retornou a Ouro Preto após estudar em Portugal, fundou uma tipografia e três jornais, sendo considerado o precursor da imprensa mineira.

Um dos filhos de Manuel Osório, o padre Francisco da Cunha Osório, além de ser professor do colégio, também ficou conhecido por ter se empenhado na construção da igreja matriz.

A respeito dessa igreja, consta que no local havia uma primitiva capela dedicada a Santa Efigênia, construída pelo casal Antônio Lopes Chaves e Helena Maria de Jesus. A construção de uma igreja maior teria sido iniciada a partir de 1740, no mesmo local, sendo que o mesmo casal também teria colaborado nas suas obras. Consta também que um certo padre Francisco Fernandes Fialho também esteve envolvido nas atividades da nova matriz.

igreja rosário sumidouro padre viegas

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O Cônego Raimundo Trindade, principal referência a respeito das igrejas do bispado de Mariana, anota: “A freguesia de Nossa Senhora do Rosário do Sumidouro, na Comarca de Mariana, é de instituição remota. Deu-lhe a qualidade de colativa o alvará régio de 16 de janeiro de 1752“.

Consta que em inicio do século XIX essa igreja estava em situação de ruína, e há registros acerca de uma possível obra de reconstrução, sendo que é não possível inferir a amplitude dessa obra. O que se pode ver é que a igreja possui uma bela fachada, discretamente avançada em relação às torres, que, por sua vez, se parecem com as da igreja da Ordem Terceira de São Francisco em Mariana.

O interior é simples, porém harmônico, com o altar-mor e os dois colaterais ornados de talha tendente ao rococó. A igreja possui colunas e tribunas nas laterais da nave principal, e a capela do santíssimo possui um belo e piedoso crucifixo, provavelmente da mesma época da edificação da matriz.

Essa igreja sempre passou por diversas obras de reparação, todas elas conduzidas por moradores do próprio local. Em meados do século XX, parte do templo desmoronou, e as obras de reparos foram financiadas pela própria comunidade, com uma equipe encabeçada por Sebastião Gomes, Roberto de Castro e Pedro Gomes, sob os auspícios do Cônego Jadir Trindade.

Nos anos 1990 a igreja novamente passou por grandes reparos, nos quais atuaram José Calixto da Silva, Morais Guido de Lima, João Facundo de Souza, Geraldo de Jesus Gomes e o carpinteiro Antônio Zacarias.

A parte mais dramática da história desse templo aconteceu nos anos 1990, quando a igreja sofreu um saque e muitas imagens sacras foram roubadas. Esse crime sacrílego gerou uma enorme tristeza na população local, e muitas das peças ainda são procuradas. Atualmente, os moradores se revezam na guarda da igreja bem como dos seus pertences.

O interessante na história dessa igreja é que ela ainda mantém todas as suas características setecentistas e a pureza do estilo original – algo raro quando se trata de templos históricos brasileiros que passam por muitas reformas. Os moradores de Padre Viegas – ou Sumidouro, como os mais antigos preferem – merecem uma menção honrosa por manterem íntegra e original, por quase três séculos, sua bela igreja matriz.

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– MOURÃO, Paulo Krüger Correa, As igrejas setecentistas de Minas, Belo Horizonte: Itatiaia, 1986

– NONATO, Junior Eduardo. Sumidouro ou Padre Viegas? Artigo disponível em: <http://pt.slideshare.net/Cnsrpv/sumidouro-ou-padre-viegas-26185118&gt; Acesso em 09/01/2017

– Vídeo sobre o distrito de Padre Viegas

 

Um comentário sobre “Matriz de Nossa Senhora do Rosário do Sumidouro – Distrito de Padre Viegas – Mariana, Minas Gerais

  1. Roubar peças sacras é crime que não prescreve. Em qualquer época que forem localizadas, podem ser apreendidas e os responsáveis punidos. Há ampla legislação que trata do tema, a começar pelo Decreto Lei nº 25/1937. Outra lei (nº 4.845/1965) proíbe a saída do País de obras de artes e ofícios (ainda que não sejam tombados), produzidos no Brasil até o fim do período monárquico (1889) sem autorização do Iphan.

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