Igreja de Nossa Senhora do Livramento dos Homens Pardos – Recife, Pernambuco

A primeira menção a uma igreja recifense dedicada a Nossa Senhora do Livramento é datada de 1694, quando teria existido uma pequena igreja situada nas “hortas de São Pedro dos Clérigos”.

A invocação à Virgem Maria enquanto sendo “Senhora do Livramento” é bastante antiga, tendo se originado em Portugal na época da batalha de Alcácer-Quibir, na qual o rei Dom Sebastião foi morto e muitos soldados de seu exército derrotado caíram prisioneiros dos mouros. A mesma invocação ganhou força quando os espanhóis dominaram Portugal (União Ibérica) e prenderam os nobres que não aceitaram o seu jugo. Mas, para além desse contexto histórico, Maria é venerada como libertadora principalmente pelo fato de ter aceitado ser Mãe do Salvador, livrando assim a humanidade do jugo do pecado.

Em Recife, essa devoção foi adotada pela irmandade dos pardos – que eram enorme parcela da população – e não fica clara se a junção dos nomes diz também respeito à libertação de algum jugo escravagista, ou se é apenas um complemento pelo fato de serem eles os instituidores da irmandade (assim como ‘Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, por exemplo). Ficou assim perpetuado o nome “Nossa Senhora do Livramento dos Homens Pardos“.

Há documentação de 1717 que faz menção a um entalhador chamado João da Costa Furtado, que seria o autor dos altares. Consta também que no ano de 1720 foi instalada na sacristia um lavatório de ‘pedra da Paraíba‘.

Nos escritos de Frei Agostinho de Santa Maria, datados de 1722, também é mencionada a existência dessa capela. Ademais, na mesma época, a Irmandade do Santíssimo Sacramento, sediada na Matriz do Corpo Santo (atualmente demolida) decidiu instalar ali um santuário para o Santíssimo, elevando assim a capela ao status de igreja paroquial. Essa irmandade bancou o embelezamento da sacristia e a construção de uma nova torre, cujo sino seria ‘especialmente destinado a chamar os fiéis ao acompanhamento do Viático‘.

De 1734 a 1743 ocorreu nova reforma na igreja, mantendo, contudo, o seu aspecto modesto.

Com o passar do tempo, outras irmandades também ficaram sediadas nessa igreja, dentre elas a de Nossa Senhora do Bom Parto e a de São Gonçalo Garcia. Para elas, foram cedidos altares e nichos para que deixassem ali as imagens de seus padroeiros, e junto a eles celebrassem suas missas. Porém, com o passar do tempo, estas se desentenderam pelos mais diversos motivos, e foram posteriormente se alojar em outras igrejas da cidade. O caso mais curioso foi o da Irmandade do Bom Parto, que atraía muitos devotos para rezar, mas que, em 1827, movida por ‘desinteligências’, quis retirar sua imagem do altar lateral e levá-la para outra igreja, no que foi impedida pelos irmãos pardos. Diante da resistência, os irmãos do Bom Parto voltaram lá em altas horas da noite com escadas, escalaram as janelas da igreja e retiraram a imagem de sua padroeira, junto com todas as alfaias, levando-a para a igreja de São José de Ribamar. O caso repercutiu por toda a cidade, e o bispo de Recife ordenou então que se fizesse uma nova imagem da mesma invocação para ser venerada no mesmo altar…

A partir do ano de 1830, a irmandade dos homens pardos decidiu demolir boa parte da igreja primitiva e construir uma maior.

igreja livramento pardos recife

Em 1832, a nova fachada já estava adiantada, tendo sido colocada no seu nicho uma imagem de Nossa Senhora do Livramento, esculpida em pedra, no tamanho natural. Como a irmandade não dispunha de muitos recursos, o poder público ajudou na reconstrução, instituindo uma loteria especialmente destinada a arrecadar fundos para esse objetivo.

A douração do altar-mor foi efetuada por Cândido Ribeiro Pessoa, constando também o mestre dourador João Batista Correa como artífice do embelezamento do interior. A finalização da obra se deu em 1856, quando foi concluída a torre.

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GLOSA
De Maria o Livramento

MOTE
Deus criou de barro um ente
Cheio de dons e candura
Que bela manufatura
A obra do Onipotente!
Ergue-se um homem fulgente
Do paraíso portento..
Com infuso entendimento
Prevarica temerário
Pelo que foi necessário
De Maria o Livramento.

(Escrito pelo irmão pardo Manuel Rodrigues de Azevedo, o ‘Manoel Cabra’, poeta popular na época que se encontra sepultado nessa igreja. Extraído do livro “Velhas igrejas e subúrbios históricos”, de Flávio Guerra)

igreja livramento pardos recife

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REFERÊNCIAS:

– BAZIN, German, L’Arquitecture Religieuse Baroque au Brésil, Tome II, Paris: Librairie Plon, 1958

– BARBOSA, Antônio. Relíquias de Pernambuco: guia aos monumentos históricos de Olinda e Recife. São Paulo: Ed. Fundo Educativo Brasileiro, 1983

– GUERRA, Flávio. Velhas igrejas e subúrbios históricos. Recife:Fundação Guararapes, 1970

– VAINSENCHER, Semira Adler. Igreja de Nossa Senhora do Livramento, Recife, PEeroporto Internacional dos Guararapes/Gilberto Freyre. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: 20/11/2016

 

 

 

 

 

 

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