Basílica de Nossa Senhora do Carmo – São Paulo, SP

“A igreja do convento dos carmelitas é muito bonita, ornamentada com muito gosto e enriquecida com pinturas de ouro. Além do altar-mor, há mais três altares de cada lado em que são reproduzidas as mais notáveis ocorrências da paixão de Cristo. Essa igreja me pareceu muito superior à catedral.”

Auguste de Saint-Hilaire (Viagem à Província de São Paulo)

Conforme já apresentado no histórico da igreja da Ordem Terceira do Carmo em São Paulo, os carmelitas foram a quarta ordem religiosa a chegar no Brasil (1580), e, na região paulista, os primeiros frades desembarcaram nos idos de 1592, no porto de Santos. Nesse mesmo ano, concretizaram o “pensamento de fundar um convento na povoação que começava em Cima da Serra“com o apoio de Brás Cubas, que doou a eles dois grandes terrenos – um no litoral santista e outro nas terras de Piratininga (atual São Paulo).

A igreja original

O primitivo convento do Carmo foi edificado sob a supervisão de Frei Antônio de São Paulo Pinheiro, sobre um outeiro próximo à várzea do Rio Tamanduateí, sendo que o terreno consistia numa verdadeira fazenda cortada pelas águas do rio. Com o avançar dos anos, houve o início das Bandeiras, e com isso o povoado começou a efervescer. Consta que, durante algum tempo, os superiores carmelitas enviavam junto com os bandeirantes alguns moços, para que ‘pudessem trazer alguma ‘gente’, pois sem ella se acabariam totalmente, não só as fazendas, como também o convento‘ – tal necessidade dizia respeito à mão de obra indígena, e, segundo Leonardo Arroyo, era explicável pela grande quantidade de terras que fora doada por Brás Cubas.

Em 1697, foi construída ao lado da igreja conventual a Igreja da Ordem Terceira do Carmo, que, das duas, foi a única sobrevivente na região central paulistana até os dias de hoje. Os dois templos tinham suas fachadas divididas por um campanário central, da mesma forma que o conjunto do Carmo em Santos e em Angra dos Reis (a serem apresentados futuramente).

Igrejadocarmo19071

Houve uma grande reforma na igreja do convento do Carmo em 1766, ocasião em que foram entalhados os altares que conhecemos hoje. Ao longo do século XIX, uma viúva sem herdeiros também deixou para os carmelitas toda a sua herança, fazendo com que a Ordem tivesse, em 1836, quase quarenta imóveis, incluindo casas e fazendas.

A atual basílica

Em 1928 o governo do estado, já imbuído da mentalidade de mutilar a cidade em nome do ‘progresso’,  expropriou a ordem carmelita e demoliu a igreja e o convento do Carmo, para que ali passasse a atual Avenida Rangel Pestana. No local, sobrou apenas a igreja da Ordem Terceira. Assim, no dia 25 de abril daquele ano, foi celebrada a última missa na multissecular igreja conventual, e no mesmo dia a imagem da padroeira foi levada em procissão até uma capela provisória, situada num terreno na Bela Vista, onde os carmelitas possuíam uma pequena chácara de flores. Este foi o local escolhido para edificação do novo convento.

igreja-do-carmo-1

O projeto da nova igreja foi idealizado pelo arquiteto Georg Przyrembel (1885-1956), polonês formado na Alemanha e radicado em São Paulo, onde foi um adepto da arquitetura dita ‘neocolonial’. Na construção do templo carmelita, ele soube aproveitar os retábulos e demais componentes da antiga igreja, integrando-os harmonicamente ao novo recinto sagrado. Esse reaproveitamento dos altares configurou um caso típico daquilo que Percival Tirapeli chama de ‘retábulos peregrinos‘ – aqueles transferidos de uma igreja para outra e realocados em um novo contexto arquitetônico, fato relativamente comum em algumas igrejas paulistas (1).

basílica carmo bela vista são paulo

Acima, aspecto geral da basílica, e abaixo, parte do antigo retábulo do Santíssimo Sacramento, que foi colocado na metade inferior do conjunto do altar-mor. Nas laterais, Santo Eliseu (dir.) e Santo Elias (esq.), profetas do Antigo Testamento e precursores da Ordem do Monte Carmelo.

basílica carmo bela vista são paulo

Abaixo, metade superior do atual retábulo-mor, que era o antigo retábulo principal da igreja primitiva. Ao centro, a imagem de Nossa Senhora do Carmo.

basílica carmo bela vista são paulo

Abaixo, o altar mor. Notar que este foi feito com a superposição de dois retábulos: o antigo retábulo-mor e o retábulo do Santíssimo – uma solução encontrada para harmonizá-los com a nova estatura do templo.

basílica carmo bela vista são paulo

basílica carmo são paulo

Altar/retábulo do Senhor Morto

estalas

Estalas dos frades

As pinturas do forro foram feitas por Tullio Mugnaini – um antigo colaborador do italiano Gino Catani na pintura de outras igrejas paulistanas – e as Vias Sacras, por sua vez, são obra de Carlos Oswald, o mesmo artista responsável pelo desenho final do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. Os vitrais são obra da conhecida Casa Conrado.

carmelitas

Acima, pintura na nave central, representando os santos da ordem do Carmelo. Na parte inferior, o Profeta Elias e a chuva, simbologia aplicada à Virgem Maria (fato narrado no Livro dos Reis, 1, 44).

nossa senhora do carmo

Acima, Nossa Senhora entrega o escapulário a São Simão Stock.

basílica carmo bela vista são paulopulpito basílica carmo são paulo basílica carmo são paulo orgao basílica carmo são paulo

O órgão foi construído pela fábrica alemã E. P. Walker em 1934, com dois teclados e 2.206 tubos, e em posteriormente foi ampliado com acoplamentos que duplicam o seu efeito, dando-lhe assim a sonoridade de um instrumento de 9.600 tubos.

A nova igreja foi inaugurada com uma missa solene celebrada por Dom Duarte Leopoldo e Silva, em 1 de abril de 1934. E em 1950, por decreto do Papa Pio XII, a igreja foi alçada ao status de ‘basílica menor’.

vitral basílica carmo são paulo basílica carmo são paulo

 

_____________________

(1)  ROSADA, Mateus. Igrejas Paulistas da Colônia e do Império: Arquitetura e Ornamentação. 2016. Tese (Doutorado em Teoria e História da Arquitetura e do Urbanismo) – Instituto de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Carlos, 2016. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/102/102132/tde-30062016-112001/>. Acesso em: 2016-11-17.

OUTRAS REFERÊNCIAS:

– Arroyo, Leonardo. Igrejas de São Paulo. São Paulo: Livraria José Olympio Editora, 1954

– BAZIN, German, L’Arquitecture Religieuse Baroque au Brésil, Tome II, Paris: Librairie Plon, 1958

– TIRAPELI, Percival, Igrejas Paulistas – Barroco e Rococó, São Paulo: Editora UNESP, 2003

– Site oficial da basílica: www.basilicadocarmo.com.br

 

 

 

 

Um comentário sobre “Basílica de Nossa Senhora do Carmo – São Paulo, SP

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s