Igreja e ruínas do Convento de Santo Antônio, Vila de São Francisco do Paraguaçu (Cachoeira) – Bahia

O Rio Paraguaçu – maior fluxo d’água genuinamente baiano, com cerca de 600 quilômetros de extensão – é mencionado nos relatos portugueses desde o ano de 1526, quando Cristóvão Jacques fez expedições pelo litoral brasileiro com o intuito de expulsar corsários franceses.

Na região próxima à foz desse rio, onde ele começa se misturar com as águas salobras da Baía de Todos os Santos, há uma igreja que pode ser considerada uma das obras mais singulares e bonitas do Brasil.

Trata-se da igreja pertencente ao antigo Convento de Santo Antônio, situada na Vila de São Francisco do Paraguaçu, município de Cachoeira, e que surgiu em um momento de particular expansão franciscana no Brasil.

No ano de 1647, a Custódia de Santo Antônio do Brasil obteve sua autonomia em relação à província franciscana portuguesa. Nessa mesma época, moradores da foz do Paraguaçu ofereceram um terreno para construção de um convento, que foi fundado institucionalmente em 04 de fevereiro de 1649. Embora a ordem tivesse um bom número de vocações religiosas, as obras não começaram de imediato: a construção efetiva do novo convento começou quase dez anos depois (1658), quando a custódia brasileira da ordem, após fundar mais de doze conventos, passou a ser considerada uma província juridicamente autônoma.

Essa independência jurídica em relação à província portuguesa permitiu aos franciscanos do Brasil alcançar uma maior autonomia no traçado de suas igrejas, uma vez que seus projetos não necessitavam mais ser enviados a Portugal para aprovação. O primeiro projeto arquitetônico realizado após essa emancipação foi o convento de Cairu, situado a algumas léguas para o sul, e tinha como responsável Frei Daniel de São Francisco, o mesmo que algum tempo depois seria encarregado da construção do convento de São Francisco do Paraguaçu. Ambas as igrejas foram ponto de partida para uma nova escola arquitetônica, que o historiador francês German Bazin descreveu como sendo de “soluções inéditas, cujo desenvolvimento lógico pressupõe uma verdadeira escola de construtores pertencentes à ordem“.

Nesse contexto, o Convento de Santo Antônio constituiu-se como uma das primeiras manifestações dessa escola nova arquitetônica franciscana, germinada em terras brasileiras.

A sagração da igreja deu-se no ano de 1660, e o término das obras ocorreu provavelmente em 1686 (conforme datas inscritas na portada). A frente da igreja é voltada para o poente, e suas escadarias descem até as águas do Rio Paraguaçu.

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Quando visitou o Brasil, Bazin descreveu aquilo que considerava uma das características da escola franciscana do Nordeste, e que se aplica a essa igreja conventual: o traçado de frontispício com “composição essencialmente piramidal, obtida com a superposição de três pavimentos de larguras decrescentes“.

Ademais, muitos autores apontam existir nessa igreja uma grande influência da arquitetura oriental, que na época foi assimilada pelos religiosos que acompanhavam os aventureiros portugueses em suas navegações pela região asiática (Índia, Malásia, Macau, China, etc). O que se vê aí é, portanto, o resultado de um discreto processo de inculturação, uma prática que é frequentemente adotada pela Igreja, e que consiste em um “esforço para fazer penetrar da mensagem de Cristo um determinado meio sócio-cultural, convidando-o a crescer segundo os seus próprios valores, desde que estes sejam conciliáveis com o Evangelho” (para maiores detalhes, ler aqui documento papal a respeito).

Nesse sentido, vale lembrar que, também na região do Recôncavo, há ao menos uma igreja com provável influência chinesa em sua fachada: trata-se da igreja conventual de Nossa Senhora do Carmo, na região central da cidade de Cachoeira. No entanto, no caso do convento do Rio Paraguaçu, prevalece a influência indiana, sendo nítida a semelhança com outras igrejas indo-portuguesas edificadas em Cochim, Kerala e Goa, bem como na cidadela de Dio.

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O antigo cruzeiro desapareceu, mas seu pedestal, bem como os muros do átrio, ainda demonstram as características da arte dita ‘indo-portuguesa’.

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Durante cerca de duzentos anos o convento funcionou pacificamente junto a esse cenário bucólico. No entanto, no século XIX sobreveio uma grande perseguição política contra as ordens religiosas, fazendo com que os frades deixassem o local, que, por sua vez, ficou praticamente abandonado. As dependências do convento ficaram reduzidas a ruínas, e todos os ornamentos da igreja – incluindo retábulos, lavabo, imagens – desapareceram, restando apenas vestígios da azulejaria portuguesa que revestia a nave central.

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Posteriormente, os ofícios religiosos voltaram a ser realizados na igreja, uma vez que a vila de São Francisco do Paraguaçu continuou existindo próxima à construção, com todas as suas tradições e necessidades espirituais. Porém, os franciscanos nunca mais voltaram a habitar esse convento.

Atualmente a velha igreja conventual encontra-se canonicamente vinculada à paróquia da Matriz de Santiago do Iguape, pertencente ao clero arquidiocesano de Salvador.

Cercado pelas ruínas do claustro e demais dependências, o exterior desse magnífico templo ainda se mantém relativamente intacto, reinando serenamente sobre as águas tranquilas do Paraguaçu, como testemunha silenciosa do passado.

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Acerca dessa variante arquitetônica alcançada pelos franciscanos do Brasil, vale reproduzir um comentário de Glauco de Oliveira Campello, em sua obra “O brilho da simplicidade – dois estudos sobre arquitetura religiosa no Brasil colonial” (p.43):

“A atitude dos frades seráficos, fundamentada em sua tradição religiosa e filosófica, de místico respeito à natureza e às suas manifestações vivas, na forma de louvar a Deus através do amor pelos objetos de sua criação – que se manifestava na assimilação de novos meios e de novas influências étnicas – levou à construção de conjuntos organicamente articulados e naturalmente integrados ao ambiente, onde a complexidade e, em muitos casos, as diferentes fases da obra não afetavam o seu caráter unitário. Isso permitiu além do mais que nesses conjuntos fosse definida uma tipologia original, específica e inconfundível, sob o predomínio desses predicados.”

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______________________

REFERÊNCIAS:

 

– Azevedo, Paulo Ormindo de; “Ruínas do Convento de São Francisco do Paraguaçu

– Bazin, German, L’Arquitecture Religieuse Baroque au Brésil, Tomes I e II, Paris: Librairie Plon, 1958

– Campello, Glauco de Oliveira; O brilho da simplicidade – dois estudos sobre arquitetura religiosa no Brasil colonial; Rio de Janeiro: Editora Casa da Palavra, 2001

Neotti, Frei Clarêncio; Da criação da custódia ao restauro da província”, em Franciscanos no Brasil

– Tirapelli, Percival; Igrejas barrocas do Brasil; São Paulo:Metalivros, 2008

 

 

 

10 comentários sobre “Igreja e ruínas do Convento de Santo Antônio, Vila de São Francisco do Paraguaçu (Cachoeira) – Bahia

  1. Igrejas em Goa (antiga Índia portuguesa) assumiram, claramente, elementos de templos hinduístas. Tais elementos foram transportados para o Brasil, ao menos no caso desse Convento de Santo Antônio. Embora o nosso país nada tenha a ver com o hinduísmo, ele acabou por chegar aqui por meio de influências de arquitetura religiosa católica.

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  2. Infelizmente muitas construções históricas de relevante importâncias tem sido abandonada ao descaso patrimonial, onde muitas vezes órgãos e comunidades só se mobilizam, quando se tem interesse turistico para a preservação de um bem patrimonial,em lugares visitados,explorados por turismo,e que geram lucros as cidades onde se encontram…

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  3. Meus pais nasceram nessa vila onde passávamos as férias inteiras. Sempre imaginava como essa construção deveria ser linda na época dos franciscanos se mesmo estando em ruínas, ela encanta pela grandeza e pela riqueza em detalhes. É uma pena saber que os nossos governantes são omissos.

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  4. Infelizmente o brasileiro nao da valor ao que tem. Quando os valores mudam, as prioridades sao desviadas a outros interesses. Talvez o compromisso de restauracao cabem aqueles que desfrutaram as belezas das nossas partes historicas. Se nos nao fizermos empreendimentos e investirmos naquilo que antes amamos, como podemos reclamar das ruinas – como podemos reclamar da falta de interesse das novas geracoes?

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  5. E lamentável o estado em que se encontra o Patrimônio Baiano ,sabemos que e um bem Tombado pala SPHAN e o próprio órgão não da a menor assistência ,mas se alguém se prontificar em fazer algum serviço de conservação o próprio SPHAN cai em cima e interdita ,mesmo sob a responsabilidade de pessoas especializadas. Eles dizem tem que ter a autorização do órgão ,esse mesmo órgão fica anos para autorizar um serviço e depois não fiscalizam ,porque la não tem, ninguém especializado. Será que eles autorizam os mar
    ginais levarem ,esses bens, porque bem junto desse convento ,Igreja de Santiago teve seus bens subtraídos e ninguém tomou conhecimento.Só ficamos sabendo através de um historiador.

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