Matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso – Caeté, Minas Gerais

Caeté é uma das mais antigas cidades mineiras, tendo surgido na mesma época de sua vizinha Sabará. Seu território, que era formado por densas matas no sopé da Serra da Piedade, começou a ter seu ouro explorado por volta de 1704, e é dessa data a construção da primeira capela do local, erigida sob os cuidados de um certo Frei Simão de Santa Teresa.

A povoação logo fervilhou de aventureiros, e foi de lá que partiu o tiro inicial da Guerra dos Emboabas.

Passados os tumultos, no ano de 1714 o arraial foi elevado à condição de vila, recebendo o nome de Vila Nova da Rainha.

A informações apontam que a primeira igreja matriz do local fora construída em 1732. No entanto, foi em 1752 que a matriz definitiva passou a ser edificada. Sua padroeira era a Virgem Maria, sob o título de Nossa Senhora do Bom Sucesso – uma devoção marial muito popular entre aqueles que procuravam ganhar a vida procurando metais preciosos nas regiões mineiras.

Há relatos de um antigo vereador caeteense, escrito ainda no século XVIII, dando conta que a planta da matriz teria sido feita e doada por Manuel Francisco Lisboa, pai do Aleijadinho. O mesmo autor também afirma que Antônio Gonçalves Bracarena foi construtor dessa igreja. Na história de Caeté, o nome de Bracarena está fortemente vinculado à ermida de Nossa Senhora da Piedade, erigida na mesma época no topo da serra de mesmo nome.

A matriz foi construída com grandes proporções, possuindo um elevado pé direito e uma abundante iluminação natural. Além do elegante altar mor, há oito altares laterais, todos bastante harmônicos e com características de transição do barroco para o rococó. Paulo Kruger Mourão destaca a presença de arcos interrompidos em alguns desses altares, uma característica pouco usual em outras igrejas de Minas. Não há documentação acerca da autoria desses altares, e o mencionado autor indica que dois deles possuem características da escola do Aleijadinho. Igualmente, não há informações de autoria acerca da pintura em perspectiva que ornamenta o forro da nave.

No ano de 1790, a igreja passou por uma outra grande reforma, visto que partes dela ameaçavam ruir. Foi nessa ocasião que foram construídos o frontão, o portal, bem como a parte superior das torres, que, segundo German Bazin, provavelmente são menores do que as originalmente previstas.

caete

 

Minas2010 185

caeté bom sucesso 2

A matriz de Caeté é uma das maiores igrejas setecentistas de Minas Gerais

Minas2010 188

IMG_8040

Acima, medalhão do pórtico

IMG_8045

Minas2010 168

Abaixo, detalhe de altares e púlpito, podendo-se notar na metade esquerda dois arcos interrompidos, uma característica da decoração dessa igreja.

Minas2010 162

Abaixo, o belo altar mor, com a imagem da padroeira, Nossa Senhora do Bom Sucesso.

IMG_9567

Acerca das cerimônias realizadas nessa igreja ao longo de sua longa história, segue abaixo um nostálgico relato de um morador de Caeté, que nos idos de 1930 passou ali sua infância:

“Revejo, agora, a Igreja Nossa Senhora do Bom Sucesso, erguida na Praça Central da cidade, aquela notável obra de cantaria, construída há mais de 200 anos, uma das mais belas e ricas igrejas do Estado, cuja praça era irregularmente gramada por natureza e arborizada por frondosas magnólias, onde os pintassilgos e sabiás se aglomeravam em bandos e ali faziam seus ninhos.

“Revejo, também, neste painel, o esplendor provinciano das cerimônias religiosas que neste templo sagrado se realizavam, principalmente das festas da Semana Maior, da Padroeira, e das inesquecíveis novenas de maio, de cujo ritual nós crianças da época participávamos, cantando, em coro, laudes à Virgem Maria. Impossível exprimir agora o mundo de ideias, os sentimentos confusos que a liturgia despertava em meu coração de criança. 

“Quando a procissão chegava à igreja, a música, o cheiro do incenso, a luz, o toque dos sinos, as atitudes de todos, as palavras do oficiante, toda a impressiva e expressiva majestade do Culto, integrava-se na nossa alma para toda a vida, e constituiu, sem dúvida, o primeiro grau de nossa iniciação, ainda que inconsciente, nos mistérios das coisas de Deus.”

(Lima Júnior, Arthur. Saudade em retalhos: História de Caeté. Caeté: Departamento de Educação e Cultura da Prefeitura Municipal, 1979)

caeté serra da piedade

A matriz, bem como a cidade de Caeté, possuem como pano de fundo a Serra da Piedade

caeté bom sucesso

 

_________________

REFERÊNCIAS:

– Bazin, German, L’Arquitecture Religieuse Baroque au Brésil, Tome II, Paris: Librairie Plon, 1958

– Mourão, Paulo Kruger Correa, As igrejas setecentistas de Minas, Belo Horizonte: Itatiaia, 1986

– Lima Júnior, Arthur. Saudade em retalhos: História de Caeté. Caeté: Departamento de Educação e Cultura da Prefeitura Municipal, 1979

 

 

 

 

 

 

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s