Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres dos Montes Guararapes – Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco

Essa igreja foi edificada no local onde ocorreram duas batalhas decisivas na época da invasão holandesa – a primeira delas ocorrida em 18 de abril de 1848 e a segunda um ano depois, em 19 de fevereiro de 1649. Sua construção se deu por iniciativa do general Francisco Barreto de Menezes, dois anos após a rendição final dos batavos.

Vale lembrar que o exército da Companhia das Índias Ocidentais, pertencente à Holanda, na verdade era composto de mercenários, que tinham as mais diversas origens. Portanto, não era uma força exclusivamente ‘holandesa’: também havia alemães, franceses, polacos, húngaros e ingleses. A maioria deles possuía bastante experiência de combate, adquirida na Guerra dos Trinta Anos.

Já o lado luso-brasileiro era composto de portugueses, mestiços, negros e indígenas, que lutavam pelo objetivo comum de libertar a terra pátria (é o primeiro registro da palavra ‘pátria’ na História do Brasil). Nessa guerra havia também italianos, e, por incrível que pareça, holandeses desertores, lutando do lado brasileiro. Porém, esse primitivo exército nacional sofria bloqueio marítimo, e o armamento de fogo era mais escasso e variável, muitas vezes obtido como despojo dos confrontos e emboscadas que eram feitas aos holandeses.

A respeito desses guerreiros de Pernambuco, comentou o coronel Holandês Waenderburch: “É difícil submeter pela força um povo constituído de soldados vivos e impetuosos, aos quais nada mais falta que boa direção, e que não são de nenhum modo como cordeiros.”

Os montes Guararapes eram parte das terras de um engenho chamado de “Muribeca”, e eram uma posição estratégica no caminho entre as maiores vilas pernambucanas e Salvador.

Cerca de quatro anos após o início da insurreição contra os holandeses (já narrada em parte na história da Igreja do Desterro e Santa Teresa, Olinda), os ocupantes batavos planejaram romper o cerco em que estavam no Recife, marchar em direção ao sul, conquistar bases de abastecimento e cortar as ligações terrestres com a Bahia, e também firmar condições para retomar o território que havia sido reconquistado pelos luso-brasileiros.

Assim, carregados suprimentos e munições, saíram em uma grande marcha, visando a ocupar os Montes Guararapes. No caminho encontraram um destacamento brasileiro e degolaram os dois alferes que o comandavam. Os luso-brasileiros, que ficavam baseados na fortaleza chamada ‘Arraial Novo do Bom Jesus’, foram avisados dessa marcha, e igualmente partiram em direção aos Guararapes, dispostos a enfrentar uma batalha.

O general Barreto de Menezes, que futuramente promoveria a construção da igreja, havia ficado muito tempo preso com os holandeses em Recife, e fugira de lá pouco tempo antes. Devido ao seu posto, foi instituído comandante, mas teve o bom senso de ouvir as decisões de João Fernandes Vieira, André Vidal de Negreiros, Filipe Camarão (líder dos indígenas), Henrique Dias (líder dos negros), e o sargento-mor Antonio Dias Cardoso – todos esses estavam lutando há anos contra os invasores.

Com isso, na manhã do dia 19 de abril de 1648, dia que se comemorava a festa de Nossa Senhora dos Prazeres,ocorreu aquela que seria uma das maiores façanhas guerreiras do Brasil – um fato infelizmente pouco conhecido pela população atual.

Foi uma batalha campal de cerca de quatro horas de duração, com numerosos embates, e que congregou lado a lado as principais etnias que compõem o povo brasileiro. Esse grupo de guerreiros é considerado a ‘célula-mater’ do Exército Brasileiro.

Com grande perda de homens, e ao cair da noite, o exército holandês se retirou e voltou para Recife, deixando a vitória nas mãos dos lusos-brasileiros.

A Batalha de Guararapes, por Victor Meirelles (Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro)

A Batalha de Guararapes, por Victor Meirelles (Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro)

Segunda batalha

Quase um ano depois, os holandeses voltaram a se armar para retomar os Montes Guararapes, e então os luso-brasileiros passaram a se preparar, mais uma vez. Diogo Lopes Santiago, cronista da guerra e testemunha ocular dos fatos, ressaltou o clima de piedade que reinava entre os nacionais:

“Para que Deus concedesse aos nossos outra gloriosa vitória, como a que haviam alcançado havia dez meses nos Montes Guararapes, se fizeram por todas as freguesias da capitania muitas rogativas, procissões e outras obras pias, mandando o provisor e vigário geral  Domingos Vieira de Lima expor o Santíssimo Sacramento pelas igrejas matrizes por espaço de três dias contínuos, e que em todas as igrejas se cantassem as ladainhas como muita devoção dos fiéis cristãos, para que Deus se lembrasse de todos, e lhes desse vencimento contra seus inimigos.”

Houve então uma segunda batalha, na qual as baixas holandesas foram muito maiores que na primeira, e que minou de vez o ânimo dos ocupantes.

Assim, no ano de 1654 foi assinada a rendição, colocando fim a trinta anos de presença holandesa no Brasil

A igreja de Nossa Senhora dos Prazeres

Pouco após a rendição, o General Barreto de Menezes mandou erguer uma pequena capela, e cedeu-a aos monges beneditinos, recomendando que, se possível, deveria ser melhorada, para que fosse ‘em crescimento e serviço de Deus’.

Entre 1676 e 1680 os religiosos procuraram dar andamento ao desejo do doador da capela, e empreenderam diversas reformas e ampliações. O corpo da capela primitiva foi preservado, ficando como capela-mor, e no interior da nova construção foram implantados os azulejos e também os dois altares laterais (do Bom Jesus e de Santa Ana, datados de cerca de 1680).

Em 1755 o arquiteto Frei Macário de São João iniciou mais uma reforma. Essa obra, porém, ficou interrompida por mais de vinte anos, devido à perseguição religiosa promovida pelo Marquês de Pombal, e que afetou diretamente a Ordem Beneditina. Somente em 1782 as obras foram reiniciadas, sendo conduzidas pelo arquiteto Francisco Nunes Soares, que também executou reformas no Mosteiro de São Bento em Olinda.

A fachada, guarnecida por dois campanários e contendo três arcadas, foi construída nessa terceira etapa, e é inteiramente revestida com mais de treze mil azulejos portugueses, trazidos de Lisboa em 1790.

Ao lado da igreja há um pequeno mosteiro onde residem beneditinos.

Na década de 1970, o IPHAN criou o Parque Nacional dos Montes Guararapes, englobando os morros onde ocorreram as batalhas, e também a igreja e o monastério. No entanto, nos tempos recentes algumas áreas desse parque tem passado por um processo de ocupação irregular e favelização, permitidos pelo total descaso das autoridades responsáveis. Se tal situação não for revertida, em poucos anos pouco restará desse incomparável patrimônio histórico do Brasil.

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Fachada da igreja, com destaque para os azulejos e o brasão com o monograma do nome de Maria

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Interior da igreja

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Altar do Bom Jesus. Abaixo, o altar-mor.

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Abaixo, lápides na capela mor, onde posteriormente foram depositados os restos mortais dos heróis André Vidal de Negreiros e João Fernandes Vieira. O cronista Diogo Lopes Santiago assim escreveu a respeito da atuação deles na primeira batalha:

“Quem vira neste tempo aos dois mestres de campo, postos em tão grande risco e perigo de suas vidas, pelejando como leões, cada qual como alentado Marte, cada qual como um raio que vai discorrendo pela região etérea, fazendo notável estrago no inimigo, metendo-se por entre os holandeses que pareciam estar já tão cansados de pelejar; que começavam a cobrar novo alento, forças e espíritos, empenhando valor e valentia, pendenciando com tanto ânimo e esforço; quão impossível poder eu, com hipérboles de encarecimentos, engrandecer, louvar e escrever, como convém, tão grandiosos feitos?”

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Abaixo, placas em homenagem aos outros líderes guerreiros de Guararapes.

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Imagem: Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes

Em relação à história da batalha de Guararapes, há também alguns itens que fazem alusão a esse acontecimento, mas que se encontram em outros locais.

No Forte do Brum, situado no Recife Antigo, há essa tela a óleo abaixo, de data recente, que representa de uma forma atemporal os principais líderes da batalha, juntamente com a igreja de Nossa Senhora dos Prazeres.

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Também no Forte do Brum, estão preservados os restos mortais de um soldado das forças luso-brasileiras, falecido na batalha de Guararapes, e sepultado no mesmo local. Seu esqueleto foi encontrado em escavações posteriores, realizadas na região dos montes. Detalhe para o rosário encontrado junto a ele, e que confirma o que Diogo Lopes Santiago disse em sua narrativa: “não traziam artilharia, porque contra a do inimigo opunham seus varonis e robustos peitos e animosos corações’, não levavam bandeiras, e em lugar delas levavam seus rosários de contas pendurados no colo, que eram as bandeiras da Virgem Senhora Nossa”.

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REFERÊNCIAS:

 

– Bazin, German, L’Arquitecture Religieuse Baroque au Brésil, Tome II, Paris: Librairie Plon, 1958

– Barbosa, Antônio. Relíquias de Pernambuco: guia aos monumentos históricos de Olinda e Recife. São Paulo: Ed. Fundo Educativo Brasileiro, 1983

– Guerra, Flávio. Velhas igrejas e subúrbios históricos. Recife:Fundação Guararapes, 1970

– SANTIAGO, Diogo Lopes de. História da Guerra de Pernambuco e Feitos Memoráveis do Mestre de Campo João Fernandes Vieira. Recife: Fundarpe, 1984, pgs. 540 a 560

– Souza Júnior, Antônio de. Do Recôncavo aos Guararapes, Rio de Janeiro:Biblioteca do Exército, 1998

Federação Academia de História Militar Terrestre do Brasil

Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes

– Lei 12.701 de 2012: Inscreve os nomes de Francisco Barreto de Menezes, João Fernandes Vieira, André Vidal de Negreiros, Henrique Dias, Antônio Filipe Camarão e Antônio Dias Cardoso no Livro dos Heróis da Pátria (clique aqui para ler o texto, no site do Planalto)

 

3 comentários sobre “Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres dos Montes Guararapes – Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco

  1. E eu gostaria de deixar claro que o Parque Nacional dos Guararapes encontra-se em franco processo de FAVELIZAÇÃO, por culpa do IPHAN e do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (esse último não espanta, pois é um dos piores tribunais, em termos de inteligência, de todo o país – basta ver a decisão semi-irracional que aprovou a construção daquelas duas torres nojentas no Recife antigo). Enfim, o parque vem sendo invadido ano a ano por pessoas sem nenhum escrúpulo, que constroem lá suas casas, já sabendo que os referidos órgãos federais em Pernambuco são conduzidos por pessoas absolutamente ineptas. Em Recife é o vandalismo da especulação imobiliária que destrói o patrimônio, e em Guararapes é o vandalismo dos pobres. Visite os Montes Guararapes antes que acabem!!

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