Santuário do Sagrado Coração de Jesus – São Paulo – SP

Na devoção católica, a representação do coração não se refere somente ao órgão biológico, e sim à ‘totalidade’ da pessoa. As Escrituras falam do coração quando desejam expressar o lugar mais íntimo do ser humano, onde residem seus sentimentos, suas esperanças e seus desejos, e também sua memória, vontade e a inteligência:

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” (Mt 11:28-30)

A devoção ao ‘Sagrado Coração de Jesus’ passou a ser mais oficialmente difundida pela Igreja a partir do século XVII, quando ocorreram as revelações místicas à religiosa Santa Margarida Alacoque, no convento de Paray le Monial, França – uma das igrejas mais conhecidas em honra a essa devoção é a Basílica de Sacré-Coeur de Montmartre, em Paris.

A primeira intenção pública de se construir em São Paulo uma igreja em honra ao Sagrado Coração de Jesus surgiu em 1878, dentro de uma confraria de São Vicente de Paulo, na denominada “Conferência do Sagrado Coração de Jesus”, quando o vicentino Domingos Gonçalves Carregaza ofereceu um terreno de sua propriedade, situado próximo ao morro do Chá, (atual viaduto do Chá) para se construir uma capela em honra à essa devoção.

Ao comunicarem a intenção ao bispo da cidade, Dom Lino Deodato, não obtiveram aprovação – mas não porque o bispo não o desejasse, e sim porque, segundo consta, ele também tinha a intenção de consagrar a diocese ao Coração de Jesus, e, com isso, desejava que fosse encontrado um lugar melhor para a futura igreja. Assim, ele encarregou os vicentinos de buscarem outro local mais favorável para a edificação do templo.

Foi feita uma campanha entre os devotos, e, pouco depois, obtiveram um terreno nos Campos Elíseos, um bairro que estava sendo idealizado por empresários suíços, e que era destinado a abrigar mansões dos ‘barões do café’.

Em 24 de junho de 1881 foi lançada a pedra fundamental da igreja. Um dos padres – cônego Jeronimo Pedroso de Barros – teve a ideia de anexar à igreja um estabelecimento de ensino: “A importancia do ensino profissional, a absoluta necessidade que temos d’elle parecerao de preferencia indicar a anexação de um lyceo de Commercio, artes e officios” dizia ele, em carta a outro clérigo. Com a proximidade de uma escola, a igreja seria melhor aproveitada, e também melhor cuidada.

Nesse mesmo contexto, em 1885 chegaram a São Paulo os primeiros padres salesianos, discípulos de Dom Bosco, e assumiram a direção da igreja – ainda em construção – bem como do estabelecimento de ensino.

O Liceu foi dividido em duas seções: uma colegial, com ensino regular, e outra destinada à aprendizagem técnica, como carpintaria, serralheria, ajustadores de maquinas, etc. Também havia uma fundição tipográfica, que foi a primeira do estado de São Paulo.

Os padres salesianos influenciaram bastante na decoração interna da igreja, que foi construída na configuração basilical romana, seguindo o estilo neo-renascentista, que estava muito em voga na Europa durante aqueles anos – inclusive, esse foi o mesmo em que foi construída a Basílica de Maria Ausiliatrice, a casa-mãe dos salesianos, em Turim, na Itália.

O altar-mor do santuário paulistano é inteiramente feito de mármore de Carrara, trazido de Turim, na Itália, e foi oferecido por Dona Veridiana da Silva Prado. Dela também foi a oferta da imagem do Sagrado Coração que fica no alto da torre, visível de grande parte da região. A construção da torre foi financiada pela Condessa Pereira Pinto, filha de Da. Veridiana, e foi inaugurada em 1901.

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Os painéis e afrescos internos são de uma artista de Florença, Itália, que quis ficar no anonimato. Também adornam a igreja cerca de quarenta lustres de cristal da Boêmia.

Durante a Revolta Paulista de 1924, a igreja sofreu alguns danos quando tropas revolucionárias tentaram canhonear o Palácio dos Campos Elíseos, antiga sede do governo, situado próximo ao Liceu salesiano. Na ocasião, três granadas atingiram a igreja, e o padre Luiz Marcicaglia, diretor do Liceu, fez uma promessa pela qual construiria uma outra igreja, em honra a santa Teresinha do Menino Jesus, caso os alunos internos fossem protegidos. Como não houve maiores danos, a promessa foi cumprida, e essa outra igreja foi construída posteriormente, na região do bairro de Santana, em São Paulo.

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Abaixo, no altar principal, o crucifixo do sacrário e o mosaico formam um conjunto representando a Santíssima Trindade. As representações católicas do Pai Eterno são baseadas sobretudo em uma descrição do profeta Daniel (7, 9-10), que relata a visão de um “ancião de muitos dias”, com “os cabelos de sua cabeça brancos como a pura lã”. A pomba branca é símbolo do Espírito Santo.

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A igreja do Coração de Jesus possui três naves, com diversos altares laterais, que por vezes eram utilizados simultaneamente pelos vários sacerdotes que atuavam no colégio – todos deveriam cumprir a obrigação de celebrar ao menos 1 missa por dia.

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Acima, o altar de Nossa Senhora Auxiliadora dos Cristãos (Auxilium Christianorum). No teto pode-se observar uma pintura referente à Batalha de Lepanto, que deu origem à invocação.

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Os vitrais da nave principal são dedicados  a diferentes títulos atribuídos ao Sagrado Coração de Jesus. Abaixo, por exemplo, o vitral com a inscrição “Oceano de Bondade“.

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Imagem representando um anjo da guarda

A igreja do Sagrado Coração de Jesus é também frequentemente mencionada na vida do líder católico Plinio Correa de Oliveira (1908-1995), de cuja biografia se extrai o seguinte trecho:

“Recordo com emoção que Nossa Senhora dispôs as coisas de maneira que eu residisse perto de uma igreja tão altamente carregada de bênçãos quanto é a igreja do Sagrado Coração de Jesus. Ali eu assistia à missa de domingo, com meus pais, desde que dei acordo de mim mesmo. (…) Esse santuário exercia sobre mim um efeito que hoje vejo ser uma ação sobrenatural; mas eu pensava que aquela sensação decorria do aspecto do edifício, cuja composição de cores e formas parecia-me tão digna e recatada que era para mim a própria expressão da santidade. A igreja do Sagrado Coração de Jesus possuía uma harmonia, uma suavidade, uma distinção, uma majestade muito alta e sacral, acima de qualquer dignidade terrena; doce e acolhedora, com uma bondade materna, embebida de uma tristeza enternecida que ao mesmo tempo parecia pedir compaixão. Toda a minha pessoa se sentia impregnada por harmonias e doçuras novas, com uma influência apaziguante, sereníssima e envolvente, de misericórdia e perdão, que me dava força e capacidade de julgamento sadio.” (1)

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NOTAS

– (1) CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Notas Autobiográficas. São Paulo: Retornarei, 2010, v.I, p.502.

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REFERÊNCIAS:

– ARROYO, Leonardo. Igrejas de São Paulo. São Paulo: Livraria José Olympio Editora, 1954

– Site do santuário: www.santuariosagradocoracao.com.br

Santuário de Paray le Monial

Atualmente, a Rede Vida transmite ao vivo as missas ali celebradas às primeiras sextas-feiras de cada mês.

 

 

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