Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência – Rio de Janeiro – RJ

A Ordem Terceira de São Francisco – composta de pessoas leigas que seguem a espiritualidade franciscana – foi instituída no Rio de Janeiro no ano de 1619, e inicialmente exercia suas atividades junto ao Convento de Santo Antônio, pertencente aos frades.

Após vários anos, foi construída uma primeira capela, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, situada numa posição perpendicular à igreja conventual – essa capela existe até hoje, e pode ser vista de dentro da igreja conventual.

Em 1657 os frades doaram aos irmãos terceiros um terreno ao lado da igreja conventual, onde poderiam iniciar a construção de uma igreja maior. Assim, na transição entre os séculos XVII e XVIII, iniciou-se a construção da capela atual.

em 1723

Acima, representação do Convento de Santo Antônio em 1723, já com a capela da Ordem Terceira. Ilustração: Carlos Gustavo Nunes Pereira (Guta).

Uma vez que a ordem terceira franciscana possuía em suas fileiras muitos homens da alta sociedade carioca, as doações vieram generosas, e a igreja na qual eles praticariam seus exercícios devocionais nascia para ser um dos templos católicos com interior mais ricamente adornado, não somente do Rio, mas de todo o Brasil.

Abaixo, uma visão atual da igreja e do convento, vistos a partir do Largo da Carioca:

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A respeito dos artistas e das datas nas quais foi realizada a decoração do belíssimo interior desta igreja, os livros da irmandade guardaram os seguintes nomes e datas:

– Em 1726, Manuel de Brito entalha o retábulo da capela mor, bem como o revestimento escultórico das paredes da mesma capela. Posteriormente, em 1732, o mesmo artista faz os púlpitos, enquanto outro artesão, Manuel da Costa Coelho, faz o douramento da capela-mor.

– A partir de 1735, outro grande artista se junta às obras: Francisco Xavier de Brito, aquele que mais tarde iria para Minas Gerais e contribuiria na formação artística do Aleijadinho. Nesse ano, Xavier de Brito iniciou o entalhe do arco cruzeiro e dos altares laterais.

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– Em 1737, um quarto personagem, Caetano da Costa Coelho, inicia a pintura do teto da capela mor, e no mesmo ano a igreja é solenemente inaugurada. Dois anos depois, Manuel de Brito (que já havia feito o retábulo da capela-mor), foi novamente contratado, desta vez para que preenchesse com talha os espaços nas paredes entre os altares laterais, que haviam sido feitos por Xavier de Brito (que, nessa época, segundo consta, já teria ido para Minas Gerais). Assim, todo o espaço no interior da igreja ficou revestido de profusa talha barroca. E finalmente, em 1740 toda o templo recebeu douramento.

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Nas paredes também há painéis, de autoria de José Dias, um pintor carioca. Abaixo, uma representação do sonho do Papa Inocêncio III:

“Na véspera do dia em que São Francisco de Assis foi com os seus doze amigos, pedir a Inocêncio III que os autorizasse a pregar, este Papa teve um sonho no qual a sua Catedral balançava prestes a cair, mas surgia um monge enviado por Deus, que, sozinho, apoiando-se contra as muralhas vacilantes, impedia que caísse. Era esse homem jovem, magro, vestido com um burel: São Francisco.
Quando Inocêncio III reconheceu em São Francisco aquele monge pobre com um burel surrado que sustentava sua Catedral para que não caísse, entendeu que Deus tinha uma grande obra a fazer através do pobre monge. Disse-lhe: “Na verdade, é por meio desse homem piedoso e santo que a Igreja de Deus será restabelecida nas suas bases!” (1)

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No altar-mor, há uma reprodução da visão que São Francisco teve em 1220, quando estava em oração no Monte Alverne e viu Cristo pendente na cruz, circundado por seis asas de anjo (fato durante o qual recebeu as chagas). Também há uma grande imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, padroeira dos franciscanos, e que foi trazida de Lisboa para o Rio de Janeiro durante a construção da igreja.

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Abaixo, o piso da capela-mor é feito em mosaicos com diversas tonalidades de mármore.

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A última obra realizada dentro dessa esplêndida igreja foi a pintura do teto da nave principal, que também foi feita por Manuel da Costa Coelho, sendo terminada provavelmente em 1743. É a primeira pintura barroca em perspectiva feita no país, e representa a Apoteose de São Francisco.

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(1) – Aquino, Felipe; São Francisco e o Papa Inocêncio III, disponível em: http://cleofas.com.br/sao-francisco-e-o-papa-inocencio-iii/

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REFERÊNCIAS:

– Bazin, German, L’Arquitecture Religieuse Baroque au Brésil, Tome II, Paris: Librairie Plon, 1958

– Bonnet, Marcia Cristina Leão; A representação do Cristo Seráfico na Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência do Rio de Janeiro; disponível em: http://www.scielo.br/pdf/vh/v24n40/06.pdf

– CARVALHO, Benjamin de. Igrejas Barrocas do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S.A., 1966

– Dornelles Facó, Anne (coord.), Guia das Igrejas Históricas da Cidade do Rio de Janeiro, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Especial de Projetos Especiais, 1997

– Tirapelli, Percival, Igrejas Barrocas do Brasil, São Paulo: Metalivros, 2008

 

 

 

 

 

 

2 comentários sobre “Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência – Rio de Janeiro – RJ

  1. Sou irmão terceiro franciscano, e já me questionaram o porquê de tanto ouro nas nossas igrejas. Eu digo o seguinte: o ouro aí não tem utilidade comercial, não é para esbanjar, não é para mostrar riqueza. É para embelezar. Não é luxo, é sublimidade. Lembremo-nos que um dos Magos ofereceu ouro de presente ao pequeno Jesus.
    E quem colocou esse ouro aí não foi o clero, foram os irmãos terceiros, que eram da sociedade, e tinham condições para fazer isso. Não era ouro pertencente à Igreja. Nenhum frade franciscano ficou mais rico quando colocaram ouro nas suas igrejas.
    E digo mais: a partir do momento em que esse ouro foi para a ornamentação das igrejas, ele deixou o patrimônio particular de alguém e passou a pertencer a todos, ficou visível e possível de ser admirado por todos. Já o ouro que permaneceu no patrimônio particular nem sequer está mais no Brasil; está em reservas e cofres de bancos na Inglaterra ou outros países. Graças a essas igrejas, nós podemos ver a cor do ouro que nosso país um dia teve! E se esse ouro tivesse ido para ‘alimentar pobres’, ele teria sido suficiente para dar almoço por algumas semanas para um grupo de pessoas, e depois acabaria, e elas voltariam a passar fome. E, pelas regras do comércio, esse ouro estaria nas mãos dos comerciantes de comida.
    Portanto, vamos ser mais racionais e parar com essa ideia besta e demagógica de dizer que ‘a Igreja deveria vender seu ouro para os pobres’. Primeiro que não foi a Igreja que colocou esse ouro aí, segundo porque esse ouro é coletivo, e terceiro, porque não adiantaria nada vender isso aí para alimentar pobres.

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