Convento de Santo Antônio e Capela Dourada – Recife, Pernambuco

O CONVENTO DE SANTO ANTÔNIO

Esse convento originou-se no ano de 1606, quando moradores de Recife solicitaram aos franciscanos que fundassem um mosteiro na cidade. O local da fundação era parte de um terreno que havia pertencido a um dos descendentes de Jerônimo de Albuquerque, um dos primeiros portugueses a vir para o Brasil. Na época o local era à beira da praia, e quando a maré avançava, chegava às portas do convento.

Inicialmente, foi construída apenas uma casa modesta e um oratório, onde os frades viviam enquanto o convento era construído. O padroeiro escolhido para o convento foi Santo Antônio, célebre frade franciscano nascido em Lisboa e que posteriormente viveu em Pádua, na Itália.

Com a invasão holandesa em 1630, os freis fugiram para o Arraial do Bom Jesus – fortificação comandada por Matias de Albuquerque, para oferecer resistência à ocupação. O Convento de Santo Antônio foi cercado de trincheiras e transformado em um forte, conhecido como ‘Forte Ernesto’ – os holandeses também o chamavam de “Fortaleza T’clooster” (fortaleza do convento). Na época,  a igreja passou a servir como paiol e também como cemitério.

Após a rendição holandesa (1654), Andre Vidal de Negreiros – um dos principais líderes da libertação – foi quem recebeu as chaves do lugar, e encontrou ali um ‘armazém de pólvora, tudo estando arrombado e ofendido‘.

Mais de trinta anos após a guerra, no  ano de 1685,  os frades já haviam retornado ao local, e foi empreendida uma grande reconstrução. Há poucas informações sobre essas obras, e o que se sabe é que foram feitas no mesmo tamanho do prédio original. Externamente a igreja adquiriu o chamado ‘estilo de Ipojuca’, ganhando inclusive uma ‘galilé’ (arcadas nas portas), característica presente em quase todos conventos franciscanos do Nordeste.

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Uma curiosidade ocorrida no local é que, seguindo um costume português, o padroeiro do convento, Santo Antonio, passou simbolicamente a receber ‘soldo’, como se fosse um soldado’. O padroeiro era muito solicitado nas necessidades de então, incluindo as militares. Inclusive, posteriormente foi ‘promovido’ a tenente.  Tudo isso era oficial, com apoio da população, chancelado pelo poder público local e até mesmo reconhecido em documento pelo rei de Portugal. Na impossibilidade de entregar o pagamento ao frade ‘na eternidade’, o soldo era então repassado para os frades. Na prática, pediam-se graças por intercessão de Santo Antônio, e em troca ajudavam os monges, irmãos de batina do mesmo santo.

A respeito desse costume singular, Frei Gomes Teixeira, citado pelo historiador Flavio Guerra, observa que “apesar de ser sacerdote, não o fizeram capelão do regimento, mas sim oficial combatente, porque o capelão vai na guerra atrás dos batalhões, a cuidar dos feridos e mortos, e a imaginação dos soldados queria ver o santo de sua terra à frente e conduzindo-os, como chefe inspirado“. O costume de pagar esse soldo perdurou até o século XIX, quando caiu em desuso.

Nessa época (século XIX), os altares laterais antigos foram substituídos por outros mais sóbrios, em estilo neoclássico.

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A igreja possui muitos azulejos, importados de Lisboa em meados do século XVIII. Alguns são meramente ornamentais (como os da cúpula da capela mor) e outros narram fatos da vida de Santo Antônio.

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Embora o local certo não seja conhecido, sabe-se que neste convento foi sepultado um dos heróis da Guerra de Pernambuco (Insurreição Pernambucana): Henrique Dias, um ex-escravo que durante vários anos liderou tropas de negros, ao lado dos demais brasileiros, contra os invasores holandeses. Participou de várias batalhas, e, embora pouco reconhecido, talvez tenha sido o maior herói afrodescendente que o Brasil já teve (inclusive, por seus feitos tornou-se membro da Ordem de Cristo).

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A capela Dourada da Ordem Terceira

No ano de 1695, o capítulo provincial dos franciscanos em Salvador autorizou a constituição de uma Ordem Terceira em Recife (as ordens terceiras são formadas por pessoas leigas, que vivem na sociedade, mas que querem de alguma forma seguir uma determinada regra religiosa).

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Claustro da ordem terceira

Como era costume na época, as atividades dos terciários franciscanos em Recife começaram junto do convento. Muitos de seus membros eram da alta sociedade pernambucana, incluindo aí poderosos senhores de engenho – era a época em que Pernambuco estava no apogeu do ciclo da cana de açúcar.

A obra teve como arquiteto um dos homens mais importantes da época, Antonio Fernandes de Matos, que também se tornara terciário franciscano.

Com irmãos terceiros eram dotados de grandes posses, não faltaram recursos para construção da capela e das demais dependências.

Assim, no ano de 1696, iniciou-se a obra daquela que seria uma das mais belas manifestações do barroco em Pernambuco e no Brasil.

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Interior da Capela Dourada

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A talha dessa magnífica capela foi realizada por Antonio Martins Santiago, e as obras de embelezamento do interior duraram até 1724. O douramento dos altares e das paredes foi executado Manuel de Jesus Pinto. Há também na base das paredes vários painéis de azulejos portugueses, que contribuem para dar uma variedade de cores à igreja.

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Pintura representando São Francisco de Assis tendo a sua Regra aprovada pelo Papa Inocêncio III

As pinturas da capela representam santos franciscanos, virtudes, fatos da vida de São Francisco, e foram executadas entre 1699 e 1702. São todas de autoria desconhecida, e, na opinião do célebre historiador francês German Bazin, estão entre as pinturas mais belas do Brasil.

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Representação da virtude da Esperança

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Santa Izabel, Rainha de Portugal, pertenceu à ordem das Clarissas, ramo feminino da ordem de São Francisco.

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Sacristia

Já no final do século XVIII, os terciários decidiram fazer uma terceira igreja no mesmo complexo, com a frente voltada para a rua. Assim, foi construída a igreja com o orago de ‘São Francisco das Chagas’. Esta ficou sendo a ‘casa de exercícios espirituais’, e a Capela Dourada ficou sendo a capela dos irmãos noviços. O frontispício dessa outra igreja foi revestido com pedras de Lioz, compradas da irmandade do Santíssimo Sacramento, que na época estava promovendo a construção da Matriz do Corpo Santo (igreja que infelizmente foi demolida em uma das tantas reformulações urbanas que mutilaram o Recife Antigo).

Abaixo, a fachada da igreja de São Francisco das Chagas, que, juntamente com a Capela Dourada e a igreja conventual, faz parte do conjunto histórico do Convento de Santo Antônio.

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REFERÊNCIAS:

– Bazin, German, L’Arquitecture Religieuse Baroque au Brésil, Tome II, Paris: Librairie Plon, 1958

– Barbosa, Antônio. Relíquias de Pernambuco: guia aos monumentos históricos de Olinda e Recife. São Paulo: Ed. Fundo Educativo Brasileiro, 1983

– Guerra, Flávio. Velhas igrejas e subúrbios históricos. Recife:Fundação Guararapes, 1970

– Tirapelli, Percival, Igrejas Barrocas do Brasil, São Paulo: Metalivros, 2008

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