Convento de Nossa Senhora da Conceição da Lapa – Salvador, Bahia

Em 13 de outubro de 1733, João de Miranda Ribeiro e outros cidadãos de Salvador obtiveram autorização do rei de Portugal, Dom João V, para estabelecer um segundo convento de religiosas franciscanas na capital brasileira. Um ano após a autorização real, o Papa também daria sua benção para o novo mosteiro.

Na época, já existia na cidade o convento feminino de Nossa Senhora do Desterro, mas, devido ao grande número de vocações, esse estabelecimento não podia mais abrigar todas as freiras seguidoras da regra de São Francisco. Por isso houve o empenho na construção de outro mosteiro.

O local escolhido foi um terreno onde havia trechos de antigas fortificações da cidade, perto de uma capela dedicada a Nossa Senhora da Lapa. Como as fortificações estavam em ruínas, o Conselho Ultramarino não colocou obstáculos para a construção, e, em 1741, as obras já estavam em fase bastante adiantada. Uma das principais características desse convento é o ‘mirante’: uma parte do edifício que continha vários andares, afastados do burburinho da rua, que serviam para que as religiosas pudessem contemplar uma vista mais longínqua em momentos de meditação.

Em dezembro de 1744, entraram no local as 17 primeiras noviças, acompanhadas de duas religiosas do Convento do Desterro. O convento ficaria sob a regra concepcionista (Ordem da Imaculada Conceição), também de inspiração franciscana. Assim, o nome da igreja somou as duas invocações marianas: da Imaculada Conceição e da Lapa. Entre as primeiras noviças, haviam também filhas do empreendedor da obra, João de Miranda.

No ano de 1750, começou a ser construída a capela atual. A igreja não possui fachada, pois é feita em sentido paralelo à rua e voltada para o convento. Mas possui na entrada externa uma bela porta em pedra de lioz, que veio de Lisboa em 1754.

O interior do templo possui uma bela capela mor, feita pelo entalhador Antônio Mendes da Silva. O altar principal possui um grande baldaquino em forma de coroa, sustentado por colunas retorcidas, em estilo salomônico. No nicho central, encontra-se a imagem da padroeira, Nossa Senhora da Imaculada Conceição. O antigo sacrário não está mais no local, e foi substituído por outro feito de mármore.

As paredes da capela mor são revestidas de painéis de azulejos portugueses, que foram instalados cerca de trinta anos após o início da construção da capela. No painel do lado direito, há uma representação da Adoração dos Pastores na noite de Natal, com os dizeres “Nesta lapa se abrevia toda a glória e sua luz; pois nela o sol de Jesus nasceu da aurora Maria“. Por sua vez, o painel da esquerda representa a transladação da imagem da padroeira, em procissão.

No teto da capela mor e da nave há belas pinturas, de autoria desconhecida. A pintura maior, do teto da nave central, representa monjas recebendo o hábito diante de Nossa Senhora e da Santíssima Trindade.

No ano de 1822, durante os conflitos da guerra de independência do Brasil, o Convento da Lapa foi palco de uma invasão praticada por tropas portuguesas, que pensavam haver rebeldes escondidos lá. No local não havia nada para esconder das tropas, mas Madre Joana Angélica, abadessa do convento, que na época tinha 61 anos, tentou impedir a entrada dos soldados, unicamente com o intuito de proteger a clausura e a integridade das irmãs. Acabou sendo morta a golpes de baioneta pelos mercenários enraivecidos. Com isso, seu nome ficou gravado na história da Bahia e do Brasil.

Já no início do século XX – em consequência de leis que impediam a abertura de noviciados – o convento estava quase despovoado, sendo habitado por apenas três monjas concepcionistas e algumas outras recolhidas (sem votos perpétuos). Nessa mesma época, as religiosas de outra congregação (do Bom Pastor), que não tinham morada definitiva, se abrigaram no local, passando a conviver juntamente com as concepcionistas. A última das irmãs concepcionistas da geração antiga – madre Maria Sofia – faleceu em 1912, aos 88 anos de idade, após viver 63 anos na clausura.

Embora a igreja tenha continuado a ser mantida por mulheres da sociedade baiana, foi só em 1957 que novamente viriam irmãs concepcionistas para novamente morar no local – cinco vieram do Mosteiro da Ajuda, no Rio de Janeiro, e três do mosteiro de Macaúbas, em Minas Gerais. As irmãs ficariam neste convento até 1985, quando a prefeitura desapropriou parte do terreno para construir uma estação de ônibus (infelizmente a preservação de patrimônio histórico nunca foi prioridade nesse país). A partir de então, as irmãs então se mudaram para outro mosteiro, construído como indenização pela prefeitura, no bairro de Brotas. Mas a igreja da Conceição da Lapa permanece sendo utilizada para celebrações e atividades paroquiais.

 

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REFERÊNCIAS:

– Bazin, German, L’Arquitecture Religieuse Baroque au Brésil, Tome II, Paris: Librairie Plon, 1958

– Sobre Madre Joana Angélica: www.bv2dejulho.ba.gov.br

– Sobre concepcionistas, ver também texto sobre o Convento da Luz, em São Paulo-SP

 

 

 

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