Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé – Rio de Janeiro – RJ

Um dos pontos mais conhecidos da parte urbana do Rio de Janeiro sem dúvida é a Praça XV de Novembro. Extremamente central, é ponto de parada de diversos meios de transporte público, inclusive das balsas que chegam de Niterói. Nessa praça, em 1889, o Marechal Deodoro da Fonseca proclamou a República. No entanto, a maioria das pessoas que passa por ali provavelmente desconhece que neste local encontra-se uma das igrejas mais cheias de simbolismo da história do Brasil.

De capela a igreja conventual

A história do templo começa ainda no século XVI, quando o Rio de Janeiro era uma pequena vila, com edificações concentradas na região entre o Morro do Castelo e o Morro de São Bento. Essas duas elevações eram ligadas por uma rua retilínea, que, por seu traçado, foi logo chamada de Rua ‘Direita’ da Misericórdia (passava junto à Santa Casa de Misericórdia, de quem emprestou o nome). Nessa rua, além de um pequeno forte denominado ‘Santa Cruz’, existia também uma capela dedicada a Nossa Senhora do Ó, em frente à qual – assim como nos dias de hoje – chegavam e partiam embarcações. O visual de então era mais ou menos como essa gravura abaixo:

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No ano de 1590 começaram a chegar os primeiros frades carmelitas no Rio (sobre os carmelitas, ler sobre o convento do Carmo de Salvador). Eles se instalaram junto à referida capela de N. Sra. do Ó, que passou a ser utilizada como capela para os ofícios religiosos. Alguns anos depois, em 1619, iniciaram a construção do convento, que foi erigido junto à capela. Abaixo, uma representação de como era o local durante o século XVII e início do século XVIII, já com o convento:

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Com a descoberta do ouro em Minas Gerais, o Rio de Janeiro passou a desempenhar um papel mais preponderante no cenário brasileiro. A população da cidade aumentou, e seu porto se tornou o mais movimentado do país. Tal crescimento logo se fez refletir nas construções da cidade, que passou a ter mais casarões, prédios públicos, e também igrejas maiores. Na mesma época, a antiga igreja do Ó começou a ruir, e os frades resolveram substituí-la por outro templo, que seria a igreja conventual, dedicada à Virgem sob o título de “Nossa Senhora do Carmo”. Sua construção iniciou-se em 1761 – quase ao mesmo tempo que a igreja da Ordem Terceira, sua vizinha.

De igreja conventual a Capela Real 

No ano de 1808, um novo capítulo se iniciaria na história dessa igreja, quando o príncipe regente Dom João VI e toda a sua corte emigraram de Portugal para o Brasil, para escapar das tropas de Napoleão Bonaparte.

Com a chegada da Corte ao Rio, o Convento do Carmo, amplo e bem localizado, foi requisitado para abrigar a rainha Dona Maria I e sua comitiva. A contragosto, os frades que ali habitavam tiveram que fazer suas malas e se retirar para outros locais, instalando-se principalmente na igreja de Nossa Senhora da Lapa (que passou a ser chamada de Igreja de “Nossa Senhora do Carmo da Lapa do Desterro“).

A partir dessa época a antiga igreja do Carmo adquiriu o status de Capela Real. Com isso, passou por uma remodelação na fachada, que acompanhou um estilo com influências do barroco italiano, muito parecido com o que ainda existe na igreja de Santa Cruz dos Militares. A configuração do conjunto, com a nova fachada (e também com a igreja dos terciários) ficou como a representação abaixo:

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Igreja do Carmo (Capela Imperial) à esquerda, e igreja da Ordem Terceira do Carmo, à direita. Fonte: portalgeo.rio.rj.gov.br

Capela Imperial e Catedral

Ao mesmo tempo em que se tornou capela real, a igreja do Carmo também recebeu a sede (Sé) da diocese carioca. Criado no ano de 1676 pelo Papa Inocêncio IX, o bispado de São Sebastião do Rio de Janeiro tinha uma Sé ‘itinerante’, sem igreja própria, tendo sua cátedra instalada primeiramente na igreja de São Sebastião (localizada no Morro do Castelo), depois transferida para a igreja de Santa Cruz dos Militares, e posteriormente para a Igreja do Rosário dos Pretos. Pelo desenrolar da História, seu destino acabou sendo também a Igreja do Carmo.

Ao longo do século XIX, acontecimentos célebres ocorreram nessa igreja. Por exemplo, foi ali que aconteceram as três cerimônias de juramento e coroação real/imperial do Brasil: do rei Dom João VI em 1818, e dos imperadores Dom Pedro I, em 1822 (quando a igreja passou a ser Capela Imperial), e Dom Pedro II, em 1841. Ali também foram realizadas todas as missas e cerimônias religiosas de caráter oficial do governo brasileiro até o ano de 1889.

Após a proclamação da República (fato que se deu em frente à igreja), o templo deixou de ter caráter imperial. Mas, em 1892, o papa Leão XIII, ao reorganizar a hierarquia eclesiástica no Brasil, elevou o Rio de Janeiro à condição de arcebispado, fazendo com que a igreja do Carmo passasse a ter o status de Catedral Metropolitana. E sua relação com a história do Brasil ainda não terminaria: no ano de 1903, os restos mortais de Pedro Álvares Cabral foram trazidos de Portugal e depositados sob uma lápide, perto do altar-mor da igreja, onde se encontram até hoje.

No ponto de vista arquitetônico, no início do século XX – época do Cardeal Dom Joaquim Arcoverde – ainda haveriam outras alterações: a fachada da catedral foi novamente remodelada, passando a ter um estilo mais indefinido, e foi construída uma nova torre, mais alta que a anterior, abrigando, no entanto, os mesmos sinos do antigo campanário. Alguns desses sinos, aliás, são oriundos da primitiva igreja de Nossa Senhora do Ó, e repicaram em importantes momentos da história do Brasil. No alto dessa torre, foi colocada uma imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, que se destaca em meio à região central da cidade.

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Vista atual do conjunto, com a igreja da Antiga Sé e sua torre, e a igreja da Ordem Terceira do Carmo

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Frontão da igreja (reconstruído no século XX), destacando-se a imagem do padroeiro da cidade, São Sebastião

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A igreja do Carmo da Antiga Sé foi o local de coroação/juramento do rei Dom João VI e dos imperadores Dom Pedro I e Dom Pedro II

A Igreja do Carmo tem sete altares laterais e o altar mor entalhados em madeira com ornamentos em ouro. German Bazin ressalta que há uma grande unidade de estilo no interior da igreja,  o que leva a crer que os altares tenham sido executados em um curto espaço de tempo. Sabe-se que são do final do século XVIII, e as obras de talha são atribuídas a Mestre Inácio Ferreira Pinto.

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Altares laterais e tribunas. Nos quadros ovais encontra-se representados os doze Apóstolos.

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Entrada da capela do Santíssimo

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Celebração da missa

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Arco-cruzeiro (com o brasão carmelita no alto) e a capela-mor

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Altar-mor e tribunas, com talha dourada

No século XVIII, a igreja chegou a possuir um órgão português, que, com o desgaste do tempo e a falta de cuidados, acabou ficando inutilizado. Após isso, um outro órgão, vindo da Alemanha, também embelezou cerimônias na igreja – mas também se perdeu devido a problemas técnicos. No entanto, em época recente, uma equipe liderada pelo francês Daniel Birouste empreendeu a construção de um novo órgão, aproveitando as bases do primitivo aparelho. O novo instrumento tem 4.000 tubos e foi finalizado em 2013. Na foto abaixo, pode-se ver a parte frontal do instrumento – que equivale ao antigo órgão – somada aos novos tubos, na moldura superior.

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Coroação de Dom Pedro I, pintura de Jean-Baptiste Debret. Na gravura, pode-se ver a igreja especialmente decorada para a ocasião.

Coroação de Dom Pedro I – pintura de Jean-Baptiste Debret. Na gravura, pode-se ver a igreja especialmente decorada para a ocasião.

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Observação: no final da década de 1970, a Sé do Rio de Janeiro foi novamente transferida para outra igreja, feita especialmente para essa finalidade, mas que é considerada uma das construções mais feias da cidade, e que infelizmente não possui a mesma graça e beleza de sua antecessora, que passou a ser conhecida como ‘Antiga’ Sé.

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Referências:

 

– Bazin, German, L’Arquitecture Religieuse Baroque au Brésil, Tome II, Paris: Librairie Plon, 1958

– Carvalho, Benjamim de A., Igrejas Barrocas do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S.A., 1961

-Dornelles Facó, Anne (coord.), Guia das Igrejas Históricas da Cidade do Rio de Janeiro, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Especial de Projetos Especiais, 1997

– Sônia Maria Queiroz de Oliveira e Natércia Rossi, Praça XV 1580 a 2002 – Um passeio no tempo, Rio de Janeiro: Instituto Pereira Passos (IPP), disponível em portalgeo.rio.rj.gov.br

– Site oficial: www.antigase.com

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