Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos – Recife, Pernambuco

A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos existiu em Recife desde os primórdios da cidade, e é uma das poucas das quais restaram documentos originais que atestam algumas de suas atividades. Foi fundada como parte das formações africanas existentes na época, que incluíam nações, dialetos e costumes diversos (ver tópico específico sobre irmandades dos pretos). O historiador Flávio Guerra menciona que “esses negros ‘tinham por padroeira Nossa Senhora do Rosário, e celebravam em seu louvor festas e danças no uso de seu país natal; essas danças eram batuques e maracatus‘.

Sabe-se que, em meados do século XVII, já existia uma igreja, na qual os confrades – que podiam ser escravos ou alforriados – realizavam suas missas, reuniões e festas. Há anotações do ano de 1678 que mencionam a confecção de um púlpito a partir de um ‘pau de jacarandá‘, e do ano de 1699 há documentação que comprova o pagamento de douração do altar principal. Flávio Guerra cita, ainda, que em 1706 os irmãos negros “estavam decididos a mandar buscar em Lisboa todos os materiais necessários para forrar-se a capela-mor com frisos de ouro“.

Durante os tumultos causados pela Guerra dos Mascates, sabe-se que a irmandade de negros de Recife abraçou a causa de sua cidade, e houve uma grande indisposição destes contra a irmandade do Rosário de Olinda. Cessado o conflito, em 1711, foi formalizado o primeiro compromisso da irmandade recifense, tendo-lhe sido autorizada a coroação de um Rei do Congo.

Ao longo do século XVIII a igreja foi recebendo sucessivas reformas e melhorias, a indicar que a irmandade era extremamente ativa e bem organizada, e que possuía também um razoável caixa para pagamento dos artífices. No ano de 1720 consta que marceneiros e carpinteiros foram pagos para ‘deitarem abaixo um campanário‘, e erguerem uma nova torre sineira – foi a partir dessa época que se iniciaram as obras que deixaram a igreja com a aparência com que se encontra atualmente.

Do ano de 1739, há o registro de que a fachada estava em más condições e com risco de desabamento, ameaçando os transeuntes. Então os membros da irmandade decidiram refazê-la, aproveitando para deixá-la com três portas de entrada, e acrescentar mais ornamentos de pedra, “conforme fosse mais galante e formosura o aspecto“.

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A fachada da igreja, com seu elevado frontão – típico de algumas igrejas pernambucanas – provavelmente é da mesma época do Mosteiro de São Bento de Olinda e de outras igrejas recifenses, incluindo a Basílica do Carmo. Ou seja, foi erguida em data posterior a 1750. Da mesma forma que a mencionada basílica, percebe-se que na igreja do Rosário apenas uma das duas torres previstas foi terminada.

O interior da igreja foi decorado com cinco belos altares, em estilo barroco rococó, que, em algum momento difícil de precisar, foram totalmente revestidos de pintura branca. Atualmente, após uma reforma, foi deixada a coloração natural da madeira, mantendo-se os detalhes dourados.

Ainda no século XVIII, a igreja do Rosário de Recife recebeu do papa Bento XIV (quatorze) a possibilidade de recepção de indulgências, desde que algumas práticas religiosas fossem observadas ali. A título de informação, vale lembrar que esse papa foi o mesmo que criou as dioceses de São Paulo e Mariana, e também proibiu a escravização de índios, sob pena de excomunhão.

Com o passar dos anos, outras irmandades de negros – que exerciam suas atividades em outras igrejas – migraram para a igreja do Rosário, que passou a ser uma referência para várias irmandades.

 

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Nicho com uma imagem da padroeira

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Na portada principal, uma coroa, um terço do Rosário e as iniciais ‘A’ e ‘M’ – de ‘Ave-Maria”

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Vista geral da igreja

Vista geral da igreja

Pintura do forro - Nossa Senhora entrega o Rosário a São Domingos de Gusmão

Pintura do forro – Nossa Senhora entrega o Rosário a São Domingos de Gusmão

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Guarda-corpo de uma das tribunas, com provável influência estilística africana

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Piso de cerâmica

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Imagem da padroeira, Nossa Senhora do Rosário.

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Referências:

– Barbosa, Antônio. Relíquias de Pernambuco: guia aos monumentos históricos de Olinda e Recife. São Paulo: Ed. Fundo Educativo Brasileiro, 1983

– Bazin, German, L’Arquitecture Religieuse Baroque au Brésil, Tome II, Paris: Librairie Plon, 1958

– Guerra, Flávio. Velhas igrejas e subúrbios históricos. Recife:Fundação Guararapes, 1970

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