Mosteiro de Nossa Senhora da Luz (c.1600/1822) – São Paulo – SP

São Paulo era ainda uma vila, quando, no ano de 1579, um documento escrito pelo Padre Anchieta (São José de Anchieta) mencionou a existência de uma capela dedicada a Nossa Senhora da Luz. Essa primitiva igreja não ficava no local atual, mas sim na região onde hoje é o bairro do Ipiranga. Por volta do ano 1600, a igreja foi transferida para um outro terreno na região do Guaré (atual bairro da Luz). Era uma igreja muito apreciada pelos habitantes do local, e algumas pessoas se revezavam para cuidar dela – houve dois, inclusive, que moraram lá na condição de ‘ermitões’. Leonardo Arroyo (1954) menciona que ‘a igreja de Nossa Senhora da Luz foi sempre muito bem cuidada pelos seus ermitões, de modo que recebia doações como ‘três mil réis’, o ‘sobrecéu’, a ‘toalha de linho’, coisas difíceis e raras na São Paulo do século XVII.

Não há nenhuma descrição ou desenho que mostre como era a igreja nessa época. O que se sabe é que a região possuía muitos campos ao redor, pois alguns criadores de gado deixavam os animais pastando nas redondezas do templo.

No início do século XVIII, quem ficou responsável pela igreja foi um militar chamado Felipe Cardoso. Ele estivera nas minas de ouro em Goiás, mas esbanjou toda a riqueza que juntara por lá, ficando reduzido à pobreza. Assim, ao retornar a São Paulo, ofereceu o templo para a ordem dos beneditinos, que, por já possuírem um mosteiro, não assumiram a capela. Assim, o capitão, já viúvo, se tornou mais um ermitão no local.

Após sua morte, a igreja passou por um longo período de abandono, até que, por volta de 1750, uma religiosa, chamada Helena Maria do Sacramento, residente do antigo Recolhimento de Santa Teresa (hoje desaparecido), começou a receber “várias revelações de Nosso Senhor, pelas quaes lhe ordenava fundasse nessa cidade de S. Paulo outro Recolhimento.

Ela comunicou as revelações ao seu confessor, cujo nome era Antônio de Santanna Galvão (o célebre Frei Galvão, ou São Frei Galvão, após sua canonização). Mas, “esse religioso devoto, e ao mesmo tempo prudente, desviou-se-lhe de entrar logo nas vistas de Helena, desejando-lhe primeiro aprofundar mais um negocio de tamanha ponderação, e ter mais certeza da vontade de Deus sobre este ponto.

Pouco tempo depois, outra visão sobreveio à freira. Cristo, rodeado de ovelhas, umas nos braços, outras pelos ombros e outras tentando subir pelo seu corpo, dizia: Eis aqui minhas ovelhas, que procuram um aprisco para se recolherem e não o encontram, pois, vós, podendo, não quereis subministrar-lhes um, fundando um convento, em cumprimento de minha vontade.

A religiosa insistiu junto ao seu confessor, que acabou por dar-lhe uma licença para promover a fundação. A freira redigiu então uma petição ao governador da província, que prontamente acolheu a ideia, com algumas condições (a maioria delas de caráter piedoso, como pedido de orações).

frei galvão1Convencido que era realmente vontade Deus, Frei Galvão também procurou com todos os meios as permissões necessárias, mesmo em meio às restrições a que todas as ordens religiosas estavam submetidas pelo governo português – afinal, desde 1764 o Marquês de Pombal, havia proibido às ordens de receber noviços e realizar novas fundações. Tolerava-se, em regime de exceção, um ou outro Recolhimento, onde mulheres se reuniam para viver retiradas, sem emitir oficialmente os votos religiosos.

As dependências da igreja foram reformadas e ampliadas, e, depois de seis meses, as primeiras religiosas já habitavam o recolhimento, que foi oficialmente inaugurado em 02 de fevereiro de 1774. Porém não sem percalços – o governo português, por não ter sido consultado acerca da fundação, por pouco não cancelou as autorizações. O problema só não foi adiante devido à atuação do governador e do bispo local, que simpatizavam com a ideia do convento.

Assim, foi surgindo aos poucos o edifício na forma que permanece até hoje. O desenho da igreja foi idealizado pelo próprio Frei Galvão. Possui uma cúpula octogonal e duas fachadas: uma voltada para a rua, e outra para o jardim do convento.

O recolhimento da Luz, em pintura de Benedito Calixto

O recolhimento da Luz, em pintura de Benedito Calixto

A construção foi finalizada no início do século XIX. Após a morte de Frei Galvão, em 1822, seu sucessor – Frei Lucas da Purificação – prosseguiu as obras, finalizando o douramento da capela e sua frente com um campanário.

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Púlpitos e coro das monjas

Púlpitos e coro das monjas

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Em 1929 o recolhimento da Luz foi incorporado à Ordem das Monjas Concepcionistas, de origem ibérica e inspiração franciscana, fundada por Santa Beatriz da Silva, no século XV. Assim, o recolhimento atingiu o status de mosteiro.

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Túmulo de Santo Antônio Galvão (Frei Galvão)

Ao lado da igreja, há um memorial com diversos objetos de uso pessoal de Frei Galvão, bem como do cotidiano do antigo recolhimento

Ao lado da igreja, há um memorial com diversos objetos de uso pessoal de Frei Galvão, bem como do cotidiano do antigo recolhimento

Local onde as monjas distribuem as famosas 'pílulas de Frei Galvão'

Local onde as monjas distribuem as famosas ‘pílulas de Frei Galvão’

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Atualmente, o edifício possui uma ala habitada por freiras, em regime de clausura, e uma outra ala ocupada pelo Museu de Arte Sacra de São Paulo.

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Imagem de Santa Beatriz da Silva, fundadora das concepcionistas

Imagem de Santa Beatriz da Silva, fundadora das concepcionistas. Para saber melhor a simbologia do hábito, clique aqui.

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Referências:

 

– Arroyo, Leonardo. Igrejas de São Paulo. São Paulo: Livraria José Olympio Editora, 1954

Ordem da Imaculada Conceição (Concepcionistas)

– Ordem do Carmelo Descalço – Província de São José

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