Matriz de Nossa Senhora da Conceição (1710) – Sabará, Minas Gerais

Os primeiros bandeirantes chegaram a essa região no final do século XVII, atraídos pelas notícias da existência de ouro, metais e pedras preciosas, que, segundo os índios, supostamente existiriam no local chamado ‘Sabaraçu’ (hoje Serra da Piedade).

Ali, às margens do Rio Sabará, não tardaram a encontrar ouro, e em pouco tempo surgiu o ‘Arraial da Barra do Sabará’, que posteriormente tornou-se a Vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará. Essa vila foi sede da enorme Comarca do Rio das Velhas, cujo limites iam desde o Espírito Santo até Goiás, e desde o Rio de Janeiro até a região Nordeste.

Vista parcial de Sabará, com campanário da capela de Nossa Senhora do Ó.

Ponto onde nasceu a vila de Sabará, sendo visível o campanário da capela de Nossa Senhora do Ó.

Como o próprio nome já diz, a “Vila Real de Nossa Senhora da Conceição” tinha como padroeira a Virgem Maria, sob o título que a exalta na condição de ter sido concebida sem a mácula do Pecado Original (Imaculada Concepção, ou Conceição – ver tópico específico).

Assim, em honra a essa invocação, em algum momento entre 1701 e 1710 foi iniciada a construção deste suntuoso templo, em substituição a uma matriz primitiva do local. E essa igreja sobreviveu praticamente intacta até os dias de hoje, atravessando três séculos de história.

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No alto das duas torres: a cruz, acompanhada de uma estrela (símbolo da Virgem Maria, que é comparada à Estrela da Manhã, que antecede o dia), o Sol, símbolo de Cristo, a Lua e um dragão de sete cabeças, que são mencionados no capítulo 12 do Livro do Apocalipse (passagem bíblica que é aplicada a Nossa Senhora). Abaixo um globo, que simboliza o mundo, e que também era um símbolo usado no brasão português.

Nas torres, abaixo da cruz há um simbolismo referente ao capítulo 12 do Livro do Apocalipse – uma Mulher (a estrela, símbolo de Maria) vestida de ‘sol‘, com a ‘lua‘ sob seus pés, e um dragão de sete cabeças. O dragão também pode ser oriundo de influências vindas de bases portuguesas na Índia e em Macau (China). Abaixo uma esfera armilar, que também era um símbolo usado no brasão português.

Apesar de ter um exterior simples e despretensioso, internamente essa igreja é uma das mais belas e cuidadosamente adornadas do país.

Suas paredes são quase todas revestidas de talha dourada e diversas pinturas. Ao contrário da maior parte das igrejas barrocas da região, ela possui naves laterais (corredores separados por colunas). Em Minas, dentre as poucas igrejas setecentistas que adotam essa configuração estão a catedral de Mariana, e também a matriz de Raposos – essa última sendo contemporânea da matriz de Sabará.

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Nave lateral

Não existem registros de quem tenha feito a decoração interna, mas a impressão é que o interior não teria sido planejado de uma só vez – tudo indica que os altares e entalhamentos foram incluídos gradativamente. Além disso, sabe-se que a imagem da padroeira veio de Portugal, e que uma balaustrada de jacarandá situada perto da pia batismal teria sido feita pelo Aleijadinho (é exatamente igual a uma outra assinada por ele para a capela da Fazenda Jaguara, e que atualmente se encontra na matriz de Nova Lima).

Na capela-mor há diversos quadros que representam cenas da vida de Jesus e Maria.

Na capela-mor há diversos quadros que representam cenas da vida de Jesus e Maria.

Nascimento de Jesus

Nascimento de Jesus

Quadro representando a fuga da Sagrada Família para o Egito. "Um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar. José levantou-se durante a noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito" (Mt. 2, 13).

Quadro representando a fuga da Sagrada Família para o Egito. 

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Colunas decoradas com esculturas de uvas e folhas de parreira (videira), juntamente com pelicanos. São símbolos de Cristo. O pelicano é uma ave que, antigamente, acreditava-se que alimentava os filhotes com sua própria carne. E sobre a videira, Cristo disse: Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. (São João 15, 5)

Colunas decoradas com esculturas de uvas e folhas de parreira (videira), juntamente com pelicanos. O pelicano é uma ave que, antigamente, acreditava-se que alimentava os filhotes com sua própria carne (com isso, foi adotado como símbolo de Cristo). E sobre a videira, também há a comparação com Jesus: “Eu sou a videira; vós, os ramos.” (Jo 15, 5)

Uma das pinturas transcreve uma frase do capítulo 1 do livro do Eclesiastes: "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade". Ensinamento que visa a alertar para o cuidado com as coisas efêmeras, supérfluas e passageiras da vida. "O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol. Não há memória do que é antigo, e nossos descendentes não deixarão memória junto daqueles que virão depois deles."

Essa pintura transcreve uma frase do capítulo 1 do livro do Eclesiastes: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Não há nada de novo debaixo do sol. Não há memória do que é antigo, e nossos descendentes não deixarão memória junto daqueles que virão depois deles.”

Pia batismal e balaustrada de jacarandá que acredita-se tenha sido feita pelo Aleijadinho

Pia batismal em pedra, junto à balaustrada de jacarandá que acredita-se tenha sido feita pelo Aleijadinho

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Referências:

– Bazin, German, L’Arquitecture Religieuse Baroque au Brésil, Tome II, Paris: Librairie Plon, 1958

– Mourão, Paulo Kruger Correa, As igrejas setecentistas de Minas, Belo Horizonte: Itatiaia, 1986

– Tirapelli, Percival; Pfeiffer, Wolfgang, As mais belas igrejas do Brasil, São Paulo: Metalivros, 1999

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