Igreja da Ordem Terceira do Carmo (1788) – Salvador, Bahia

A primeira ‘Ordem Terceira’ da história da Igreja foi instituída por São Francisco de Assis, que idealizou uma forma dos fiéis leigos seguirem uma vida espiritual parecida com a dos religiosos da ordem, mas sem a necessidade de viver nos mosteiros. Ao proceder assim, a sua obra ficou fracionada em ordem primeira (para monges), ordem segunda (para as freiras), e ordem terceira (para pessoas inseridas na vida social).

Com o passar do tempo, outras ordens seguiram o exemplo, criando cada uma sua respectiva ala de terciários.

No caso dos carmelitas, a ordem terciária foi instituída no ano de 1452, quando foi aprovada pelo papa Nicolau V. Pouco tempo depois, receberam uma regra, que era uma adaptação das normas monásticas, feita pelo Beato João Soreth.

Em Salvador, a Ordem Terceira do Carmo chegou no ano de 1636, e seu primeiro prior (superior) foi o próprio governador do Brasil à época, Pedro da Silva, Conde de São Lourenço. Para abrigar as missas e demais cerimônias dos terciários, foi construída uma capela ao lado do célebre Convento do Carmo.

Talvez o mais célebre membro da Ordem Terceira do Carmo em Salvador tenha sido Luiz Barbalho Bezerra. Natural de Olinda, ele era militar quando os holandeses invadiram Pernambuco (1630), e acabou por se envolver completamente na guerra, como membro das tropas lideradas por Matias de Albuquerque. Quando as condições da resistência se tornaram insustentáveis (1635), ele se viu cercado com seus soldados no Forte de Nazaré, em Cabo de Santo Agostinho, e ali ainda resistiu por quatro meses, até não ter outra alternativa senão capitular. Levado prisioneiro para a Holanda, pouco tempo depois conseguiu fugir e ir para a Espanha, de onde retornou ao Brasil. Ao invés de buscar tranquilidade, entrou novamente em cheio nos conflitos contra os holandeses (esteve liderando tropas no Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco). Ao regressar a Salvador, ajudou a enfrentar o cerco realizado por Maurício de Nassau à então capital brasileira, em 1638. Chegou a governar a Bahia por um curto período de tempo, e, após desentendimentos políticos, foi nomeado governador do Rio de Janeiro, cargo que exerceu até a morte (1644). Foi em meio a essa vida épica que ele tomou o hábito de terciário carmelita.

Voltando à igreja carmelita: com o passar dos anos esta foi aumentada e embelezada, mas em 1788 foi quase toda destruída por um incêndio, do qual salvaram-se apenas algumas imagens.

Foi então iniciada a construção de uma nova igreja, alavancada por uma grande doação feita pelo prior de então, que era coronel e possuía uma razoável fortuna.

Com as obras tendo se iniciado pouco após o incêndio, a nova igreja levou mais de cinquenta anos para ficar pronta.

Sua bela fachada é decorada com pedras de Lioz (trazidas de Portugal), e foi terminada em 1860. No interior, seus altares são feitos em estilo neoclássico.

Igreja do Convento do Carmo (esq.) e igreja da Ordem Terceira (dir.)

Igreja do Convento do Carmo (à direita) e igreja da Ordem Terceira do Carmo (à esquerda).

Frontão da igreja, com a cruz e o símbolo carmelita esculpidos em pedra de Lioz

Coroamento da fachada da igreja (frontão), com a cruz e o brasão carmelita esculpidos em pedra de Lioz

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Portal principal, em pedra de Lioz

Uma das portas laterais

Uma das portas laterais

Corredor lateral

Corredor lateral

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Interior da igreja.

Coro da igreja

Coro e órgão

Escadaria de acesso ao coro

Escadaria de acesso ao coro

Visão da igreja a partir do coro.

Visão da igreja a partir do coro.

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lateral do arco do cruzeiro

Pintura no teto da igreja, representando diversos santos da ordem carmelita

Pintura no teto da igreja, representando Maria e diversos santos da ordem carmelita

As igrejas da ordem terceira carmelita sempre ornavam seus altares com imagens representando Cristo em momentos de sua Paixão

Os altares laterais são ornados com imagens de Cristo em momentos de sua Paixão. Trata-se de um costume verificado em todas as igrejas dos carmelitas terceiros, e as imagens da igreja de Salvador estão, sem dúvida, entre as mais belas do Brasil.

Crucifixo do altar mor, entre as bandeiras da Bahia e do Brasil.

Crucifixo do altar mor, entre as bandeiras da Bahia e do Brasil.

Imagem de Nossa Senhora do Carmo. Nela, Maria e o menino Jesus seguram o escapulário.

Imagem de Nossa Senhora do Carmo, onde a Virgem e o menino Jesus seguram escapulários.

Imagem do Senhor Morto, pertencente à Ordem Terceira. Foi escupida no século XVIII pelo célebre artista baiano Francisco Manoel das Chagas (conhecido como " O Cabra'), e nela as gotas do sangue são feitas de rubis vindos da Índia - um recurso comum na época, e que visava ajudar a compreender o valor do Sangue de N. Senhor Jesus Cristo.

Imagem do Senhor Morto, venerada nas dependências da Ordem Terceira. Representa Jesus após ter sido descido da cruz, e foi escupida no século XVIII pelo célebre artista baiano Francisco Manoel das Chagas (conhecido como ” O Cabra’). Nela as gotas de sangue são feitas de inúmeros rubis vindos da Índia – um recurso comum na época, e que tinha um simbolismo especial, pois ajudava a compreender o valor do sangue infinitamente precioso de Cristo.

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Referências:

– Bazin, German, L’Arquitecture Religieuse Baroque au Brésil, Tome II, Paris: Librairie Plon, 1958

– Tirapelli, Percival, Igrejas Barrocas do Brasil, São Paulo: Metalivros, 2008

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