Igreja do Convento do Carmo (1586) – Salvador, Bahia

A Ordem do Carmelo possui sua semente ainda no Antigo Testamento, com o Profeta Elias, cujo feito mais notável foi ter desafiado sozinho mais de 400 profetas do deus pagão Baal, quando Israel passava por uma seca sem precedentes. Após tê-los derrotado, viu, do alto do monte, uma pequena nuvem se formar sobre o mar, e, apesar de todo o céu ainda estar claro, mandou avisar ao rei que uma chuva se aproximava. E, de fato, caiu uma chuva torrencial, naquele mesmo dia. Esses fatos ocorreram no Monte Carmelo, em Israel, e ficaram registrados no Primeiro Livro dos Reis. Nessa montanha também havia uma gruta na qual Elias se retirava para rezar e meditar.

Muitos séculos se passaram, e quando os cruzados chegaram na Terra Santa, alguns soldados decidiram abandonar a vida comum e se entregar à meditação e contemplação, à maneira dos antigos eremitas do deserto, tendo Elias como patrono. Por uma analogia, entendeu-se que aquela pequena nuvem que o profeta vira, num céu desértico – e por meio da qual veio uma grande chuva – poderia muito bem ser um símbolo da Virgem Maria, que precedeu a vinda de Cristo ao mundo. Os eremitas construiram uma pequena capela no Monte Carmelo, perto da gruta onde Elias vivia, e algum tempo depois o bispo Santo Alberto de Jerusalém deu aos monges a sua primeira regra. O papa Honório III aprovou a ordem e sancionou sua regra em 1226. Com a gradual retomada da Terra Santa pelos muçulmanos, os carmelitas começaram a retornar à Europa, e a ordem foi aos poucos estabelecendo núcleos em diversos países. Os monges que ficaram na Palestina foram todos mortos pelos maometanos no ano de 1291.

Na Europa, levou tempo até que a ordem se adaptasse a uma vida que não possibilitava uma situação de isolamento eremítico, como era no Oriente. Mas aos poucos os carmelitas foram se moldando à nova situação, e, dentre as grandes personalidades que fizeram parte das suas fileiras, destacam-se o monge inglês São Simão Stock, a freira espanhola Santa Teresa de Ávila, e o frade também espanhol São João da Cruz.

Os Carmelitas chegaram a Portugal em 1251, e se instalaram na cidade de Moura. Foi a partir desse local que eles se espalharam para o restante do país, e dali para o Brasil.

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Em Salvador, no lugar onde hoje encontra-se o convento, havia um antigo arraial denominado “Monte Calvário”. Ali havia uma capela dedicada a Nossa Senhora da Piedade, que foi doada aos monges carmelitas. A fundação desta igreja e convento anexo data de aproximadamente 1586. Foram seus fundadores os carmelitas portugueses Frei Damião Cordeiro, Frei Alberto de Santa Maria, Frei Bento da Visitação e Frei Belchior do Espírito Santo.

Uma nota de interesse é que nesse convento residiu o Frei Eusébio de Matos, ou Eusébio da Soledade (irmão do poeta Gregório de Matos e discípulo do Pe. Antônio Vieira). Os púlpitos nos quais ele proferia seus sermões ainda permanecem na igreja.

Mas o principal acontecimento histórico relacionado com o Convento do Carmo se deu quando Salvador foi invadida por tropas holandesas, no ano de 1624 – quando o prédio foi transformado em quartel-general das tropas luso-hispano-brasileiras. A cidade possuía uma grande rede de defesas, nas quais haviam várias ‘portas’ fortificadas. E o epicentro da resistência se deu justamente nas ‘Portas do Carmo‘. Após vários meses de cerco, foram vencidos os invasores, e a rendição foi assinada na sala que é a atual sacristia da igreja. O convento do Carmo passou a ser então uma referência na defesa da cidade.

A assinatura da rendição holandesa aconteceu em 30 de abril de 1625, quando foi convocado o conselho de guerra pelo Marquês de Villanueva de Caldueza, Dom Fradique (ou Fadrique) de Toledo Osório, general das forças libertadoras, acompanhado do mestre-de-campo Diogo Ruiz, e do napolitano Giovanni Vicenzo de Sanfelice, Conde de Bagnuolli. Compareceram também os comissários holandeses para apresentar sua capitulação e entrega da cidade da Bahia, assinando, em seguida, a ata de rendição.

Após esse período turbulento, o templo carmelita foi sendo constantemente modificado e melhorado, recebendo altares em estilo neoclássico, em madeira revestida de ouro. A mesa do altar principal é feita de prata, e a sacristia é uma das mais bonitas do país.

Conjunto do Carmo visto do Pelourinho

Conjunto do Carmo visto do Pelourinho

Igreja do Carmo e Rua do Passo

Igreja do Carmo e Rua do Passo

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Capela-mor

No altar mor há imagens de Santo Elias (esquerda), Santo Eliseu (direita), e no centro Nossa Senhora do Carmo. Reparar na nuvem que se encontra sob a imagem, em alusão ao fato presenciado por Elias.

No altar mor há imagens de Santo Elias (esquerda), Santo Eliseu (direita), e no centro Nossa Senhora do Carmo. Reparar na nuvem que se encontra sob a imagem, em alusão ao fato presenciado por Elias.

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Pintura no teto, mostrando Nossa Senhora e os santos carmelitas

Sacristia

Sacristia

Atualmente os monges não moram mais no convento ao lado (que virou um hotel), mas a igreja continua reservada ao culto divino. Fica no Alto do Carmo, lado a lado com a igreja da Ordem Terceira Carmelita.

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Trechos da ata de capitulação dos holandeses, de 30 de abril de 1625

No quartel do Carmo, a 30 de abril de 1625 anos, ante o Sr. Fradique de Toledo Osório, Marquês de Villanueva de Valdueza, etc., apareceram os Srs. Capitães Wilhem Stoop, general de artilharia, Hugo Antonius, comissário geral, e Franz Duchesne, todos os três do conselho, os quais trouxeram comissão do Sr. Coronel e Conselho que se acham na cidade de Salvador, Bahia de Todos os Santos, para fazerem e concluírem as capitulações seguintes: (…)

Primeiramente – que o dito Sr Coronel e Conselho entregarão a referida cidade de São Salvador ao dito Sr. Dom Fradique de Toledo em nome de sua Majestade, no estado em que se acha hoje, com toda a artilharia, armas, bandeiras, munições, apetrechos, bastimentos e navios que no porto e na cidade se acharem, todo o dinheiro, ouro, prata, jóias, mercâncias e fornecimentos, casas, negros, negras, escravos, cavalos e todas as mais coisas que se acharem na dita cidade e navios, de qualquer qualidade e condição que sejam, e de qualquer nação.

Concede-lhes o mesmo Sr. D. Fradique de Toledo, em nome de S. Majestade, que os mencionados Srs. Coronel, Monistro, capitães, soldados e seus criados, toda a gente do mar, e todos os demais holandeses, flamengos, ingleses, franceses e alemães que trouxeram consigo, sairão livremente sem o menor impedimento, com toda a sua roupa de vestir e dormir, que o coronel, capitães e oficiais possam levar em caixas e baús e os soldados em suas mochilas.

Que o dito Sr. D. Fradique de Toledo dar-lhes-á um passaporte para todos os navios de sua Majestade, a fim de que nenhum dano lhes façam, não encontrando-os fora da derrota de sua terra.

Que igualmente dar-lhes-á embarcações, nas quais possam comodamente seguir viagem para a sua terra.

Que igualmente fornecer-lhes-á mantimentos precisos para 3 meses e meio. Que toda a dita gente sairá ao mesmo tempo da cidade. Que o dito Sr. D. Fradique nomeará pessoas para revistarem os referidos soldados e mais pessoas que saírem, a fim de verificar se levam alguma coisa fora do capítulo. Que o mesmo Sr. D. Fradique haja de restituir ao dito Sr. Coronel todos os prisioneiros que se acharem aqui de sua nação.

Que nenhum soldado do exército do Sr. D. Fradique haja de fazer agravos a nenhum dos soldados e gente do sobredito Sr. Coronel.

Que o Sr. D. Fradique lhes haja de dar as necessárias para se defenderem em sua viagem, e que, até a saída dos ditos navios, nenhuma arma usarão, exceto os capitães que poderão levar espadas.

Que dar-lhes-á os instrumentos de navegação que usam os navios.

Finalmente, que o supracitado Sr. Coronel, entregará esta noite ao Sr. D. Fradique uma porta dentro da muralha, com seu corpo de guarda, e o mesmo Sr. D. Fradique entregar=lhes-á reféns a seu contento, para sua seguridade, logo que essas capitulações sem cumprirem.

Feita no quartel general do Carmo, aos 30 de abril de 1625.

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Referências bibliográficas:

Silva, Adeodato José, Notas históricas do Convento do Carmo, Salvador, 1955

Bazin, German, L’Arquitecture Religieuse Baroque au Brésil, Tome II, Paris: Librairie Plon, 1958

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