Igreja de Nossa Senhora da Candelária (1610/1877) – Rio de Janeiro

A devoção à Virgem Maria enquanto sendo ‘Senhora das Candeias’ remonta ao ano de 496 da era cristã, quando o papa Gelásio I instituiu uma festa de bênção das velas, para servir de contraposição a um ritual pagão no qual os romanos faziam um cortejo com velas e sacrificavam um lobo em honra a Pã, divindade protetora da fecundidade. Com o passar dos séculos, o Império Romano se desintegrou, mas a Igreja sobreviveu, fazendo com que essa festa, dedicada à Mãe de Cristo, se perpetuasse.

Assim, surgiu o título de Nossa Senhora das Candeias,  que também acaba sendo similar à invocação de “Nossa Senhora da Luz” – Aquela que trouxe a Luz (Cristo) ao mundo – todos referentes à Maria, mãe de Jesus.

Mas o título específico de ‘Nossa Senhora da Candelária’, apesar de similar, tem uma história ligeiramente diferente.

Para conhecê-la, é necessário irmos à Ilha de Tenerife, Arquipélago das Canárias, por volta do ano 1400. Nessa época, essa região ainda não pertencia aos reinos europeus, e seus habitantes – os ‘guanches’ – não conheciam o cristianismo.

A história conta que, certo dia, ao entardecer, dois pastores conduziam suas cabras pela orla da praia de Chimizay, em direção a uma gruta, onde pretendiam guardá-las durante a noite. Porém, perto da entrada da lapa, as cabras começaram a correr para trás, como se tivessem visto alguém. Um dos pastores, pensando haver um estranho que quisesse roubar o gado, se adiantou e subiu no barranco em direção à gruta. Numa posição mais alta, ele avistou, lá dentro, na penumbra, uma mulher segurando um menino nos braços, com uma vestimenta diferente da que era usada pelas mulheres locais. Estava de pé, numa rocha, olhando para ele.

Como era um simples pastor, desacostumado a ver pessoas diferentes, usando roupas diferentes, ele ficou imóvel, numa mistura de admiração e receio. Segundo os costumes daquele povo, caso um homem encontrasse uma mulher sozinha em locais desabitados, ele não deveria de forma alguma falar com ela, sob pena de morte. Então o pastor fez gestos e sinais para que ela saísse dali e deixasse as cabras entrarem. Vendo que a suposta mulher ficava inerte, pegou pedras para atirar nela, mas, quando tentou arremessar a primeira, seu braço se paralisou, impossibilitando qualquer movimento. O outro pastor, irritado, pegou uma pedra pontiaguda, se aproximou e golpeou a mão da imagem, para ver se sentia algo e se movia. Mas, como consequência, acabou ferindo a própria mão, com um corte profundo.

Assustados, os dois pastores correram para o vilarejo, para comunicar o fato. As pessoas, incluindo o rei local, imediatamente foram até a gruta ver ‘a estrangeira’. Quiseram trazê-la para fora, mas ninguém se atreveu a pegá-la. Os dois pastores, mais encorajados, resolveram carregá-la, e nisso tiveram suas lesões curadas. Há versões que relatam que a gruta estava repleta de velas acesas nesse momento. O fato é que o povo, admirado, passou a ter admiração e veneração por aquela imagem, a quem passaram a chamar de ‘Mãe do Sol’.

Com o passar dos anos, iniciou-se a conquista ibérica no local, e então um cristão espanhol, ao ver a imagem, imediatamente explicou-lhes de quem se tratava: era uma representação da Virgem Maria, com seu Filho, Jesus, ao colo. Ninguém nunca soube ao certo como essa imagem teria ido parar naquela ilha, dentro da gruta, mas o fato é que, por sua associação à Luz e ao Sol, e somada ao aspecto físico da imagem – que se assemelhava ao já conhecido perfil de Nossa Senhora das Candeias – sua invocação passou a ser “Nossa Senhora da Candelária”. E a Virgem Maria, sob esse título, se tornou a padroeira das Ilhas Canárias.

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A Igreja da Candelária

Foi na região das Ilhas Canárias que, no século XVII, o espanhol Antônio Martins de Paula e sua esposa Leonor Magalhães viajavam em uma pequena embarcação, rumo ao Brasil, quando o navio se viu envolvido por uma tempestade de enormes proporções. Temendo pela própria vida, ambos fizeram uma promessa pela qual, caso sobrevivessem, construiriam uma igreja em homenagem à Virgem da Candelária. Mesmo com poucas esperanças, eles conseguiram escapar, e assim se iniciava a história da igreja da Candelária do Rio de Janeiro.

Quando chegaram ao Rio de Janeiro, construiu uma pequena ermida, e que em 1634 foi transformada em sede paroquial. Em 1710, a igreja estava em más condições estruturais, e a Confraria do Santíssimo Sacramento se ofereceu para reconstruí-la. Assim fizeram; mas, cerca de sessenta anos depois, a igreja estava novamente necessitando de urgentes reformas. Decidiu-se então construir um santuário maior, no mesmo local. O sargento-mor e engenheiro Francisco João Roscio foi encarregado do projeto, e uma das formas que a confraria idealizou para obter recursos foi promover, com autorização do vice-rei, uma loteria anual, que duraria enquanto prosseguissem as obras.

A construção foi terminada em 1811, e a igreja foi oficialmente abençoada numa cerimônia que contou com a presença do príncipe regente Dom João.

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Durante todo o século XIX foram feitas outras obras, e, inclusive, houve muita controvérsia a respeito da construção da cúpula, pois muitos acharam que as bases da igreja não iriam suportar o peso de mais de 630 toneladas em pedra (muitos queriam que fosse feita de madeira). Mas ao final, o engenheiro Gustav Waehneldt apresentou um projeto que a todos convenceu, e, em 1877, estava pronta a obra.

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As imagens da cúpula representam os quatro evangelistas e também as virtudes cardeais (fé, esperança e caridade), e foram feitas em Lisboa

As imagens da cúpula representam os quatro evangelistas e também as virtudes cardeais (fé, esperança e caridade). São de mármore e foram feitas em Lisboa.

Posteriormente, foi feita a decoração interna, totalmente com influência italiana, e não portuguesa, como de costume. Inclusive todos os mármores dos altares vieram da Itália (mármore branco de Carrara, mármore rosa de Verona, dentre outros).

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Visão interna da cúpula.

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Altar do transepto (nave transversal que dá à igreja um formato de cruz).

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Teto do transepto, com frases que aludem à instituição da Eucaristia –  ‘Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio (Jo 20,21); ‘quem come este Pão viverá eternamente’ (Jo 6, 51); ‘minha carne é verdadeiro alimento e meu sangue é verdadeira bebida (Jo 6, 55)

Nesse ornamento do teto os anjos seguram tábuas que indicam trechos do Evangelho que possuem analogia com a história da construção. O primeiro anjo. Por exemplo, a passagem em que Jesus acalmou a tempestade (Jo 6, 17), e a cena em que uma mulher

Esse ornamento do teto indica trechos do Evangelho que possuem analogia com a história da construção. Um dos anjos, por exemplo, segura uma tabuinha que alude à passagem em que Jesus acalmou a tempestade (Jo 6, 17). O outro faz referência ao episódio em que uma mulher lavou os pés de Jesus com um bálsamo caro, despertando a ira de alguns hipócritas, que diziam que era melhor ela ter vendido o perfume e doado o dinheiro aos pobres (Mc 14, 3). Outro anjo remete ao trecho “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,17)

Altar principal

Altar principal

Nossa Senhora da Candelária

Nossa Senhora da Candelária

Imagem da invocação "Nossa Senhora dos Mares", ou também "Nossa Senhora dos Navegantes". Esse título venera Maria enquanto protetora dos marítimos (aos pés da imagem há a representação de embarcações).

Imagem da invocação “Nossa Senhora dos Mares”, ou também “Nossa Senhora dos Navegantes”, situada em um dos altares laterais. Esse título exalta a Mãe de Jesus como protetora dos marítimos (aos pés da imagem há a representação de embarcações).

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As portas são de bronze, e foram fundidas em Bruzy, na França. Antes de virem para o Brasil, foram exibidas na Exposição Universal de Paris, em 1889 (a mesma que inaugurou a Torre Eiffel).

Apesar da igreja ter passado por muitas melhorias desde a construção original, no belíssimo teto há painéis (autoria de João Zeferino da Costa) que perpetuam a memória do principal motivo da construção: a tempestade durante a travessia do oceano e a graça alcançada por Antônio Martins de Paula e sua esposa Leonor.

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Referências:

Basilica de Candelaria – Tenerife 

Bazin, Germain, L’Arquitecture Religieuse au Brésil, Paris: Editions d’Histoire et d’Art, Tome II, 1958

Carvalho, Benjamim de A., Igrejas Barrocas do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S.A., 1961

Dornelles Facó, Anne (coord.), Guia das Igrejas Históricas da Cidade do Rio de Janeiro, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, Secretaria Especial de Projetos Especiais, 1997

Tirapelli, Percival, Igrejas Barrocas do Brasil, São Paulo: Metalivros, 2008

 

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