Igreja de Nossa Senhora da Graça (1551) – Olinda, Pernambuco

Cronologia

Século XVI 1551- Início da construção, por ordem do donatário Duarte Coelho. A igreja e o terreno são doados aos jesuítas, para instituição de um colégio.

1567 – O rei Dom Sebastião de Portugal confere o título de ‘Real Colégio’ ao estabelecimento. A igreja é reformada e ampliada de acordo com projeto do padre Francisco Dias.

1584 – Novas reformas na igreja, dirigidas pelo padre Luiz Grã

Século XVII 1630 – Invasão holandesa. A igreja é parcialmente incendiada (altar mor e teto)

1661 – Após expulsão holandesa, a igreja é reformada. Construção da torre. O Padre Antônio Vieira ministra aulas no local.

Século XVIII 1759 – Expulsão dos jesuítas, fechamento do colégio. O local é transformado em seminário do bispado de Olinda.

Situada no Alto da Sé, em Olinda, a Igreja de Nossa Senhora da Graça foi construída a mando de Duarte Coelho Pereira no ano de 1551, sendo doada juntamente com as terras ao seu redor para os padres jesuítas, a fim de que pudessem promover a catequese dos índios e edificar um colégio.

Duarte Coelho era um fidalgo português que, esteve nas expedições de Afonso de Albuquerque, na Índia e em Malaca (atual Malásia). Nessa última cidade, ele já havia mandado construir uma igreja em homenagem a Nossa Senhora da Graça, que, por ficar situada numa elevação, ficou conhecida como Igreja do Outeiro. As ruínas dessa igreja estão lá até hoje, porém com nome diferente (dedicada ao apóstolo São Paulo, após invasão holandesa). Essa igreja era muito parecida com a que construiria mais tarde em Olinda, no Brasil.

Após cerca de 19 anos no Oriente, Duarte Coelho conseguiu fazer uma pequena fortuna, e voltou para Portugal, onde se casou com Beatriz de Albuquerque (conhecida como ‘Brites’ de Albuquerque). Mais tarde, assumiu uma das capitanias hereditárias que o rei de Portugal havia instituído. Investindo do próprio bolso, veio com a própria família e mais uma grande comitiva, para se instalar na região onde atualmente é o estado de Pernambuco. Ali, onde já existiam alguns moradores portugueses, ele fundou cidade de Olinda, e deu à capitania o nome de ‘Nova Lusitânia’, com a intenção de construir uma terra onde se pudesse viver de forma parecida com Portugal. Após sua morte, sua esposa Beatriz de Albuquerque – que era conhecida como ‘capitoa’ – comandou a capitania até a maioridade de um de seus filhos, tornando-se a primeira mulher a governar uma parte do território brasileiro.

Apesar de todas as dificuldades da época, a capitania de Duarte Coelho foi uma das poucas que deram certo no rudimentar Brasil do século XVI, e a igreja de Nossa Senhora da Graça, edificada na principal cidade dessa capitania, é uma testemunha quase inalterada desse período.

Em 1567, a primitiva igreja foi aumentada, graças a um auxílio anual que fora disponibilizado pelo rei Dom Sebastião de Portugal – o lugar ganhou então o status de Real Colégio de Olinda. Esse segundo projeto foi elaborado pelo padre jesuíta Francisco Dias, que, por sua vez, tinha sido um dos colaboradores de Filipo Terzi – um arquiteto levado de Roma para Lisboa, com o intuito de construir a igreja de São Roque. As obras da nova igreja foram comandadas pelo padre Antônio Pires, que também era pedreiro e carpinteiro.

O terreno ao redor do templo foi utilizado pelos jesuítas para aclimatar mudas de árvores frutíferas trazidas de outros continentes. Uma parte dessa grande área verde existe até hoje, tendo sido posteriormente transformada num Jardim Botânico.

Entre os anos 1584 e 1592, o padre Luiz Grã faria outras ampliações na igreja, deixando-a maior e mais bem acabada.

O colégio cresceu e se tornou referência, até que, no ano de 1630 os holandeses desembarcaram em Olinda, trazendo a guerra para a cidade. Após terem-na conquistado, habitaram por um tempo no local, mas, irritados com a resistência armada promovida pelos moradores, promoveram um incêndio (1631) onde quase todas as casas, igrejas e conventos que lá existiam foram consumidos pelo fogo. No entanto, a igreja da Graça e o colégio não sofreram muitos danos, de maneira que acabaram conservando seu aspecto primitivo pelos séculos seguintes. Segundo um estudo de Lucio Costa, o incêndio consumiu o altar-mor, o forro e o madeiramento da cobertura, sendo que a estrutura das paredes, bem como os dois altares laterais ficaram preservados.

Frans Prost: "View of the Jesuit Church at Olinda, Brazil", 1665, óleo sobre tela, The Detroit Institute of Arts

Frans Prost: “View of the Jesuit Church at Olinda, Brazil”, 1665, óleo sobre tela, The Detroit Institute of Arts

Após a expulsão dos holandeses, mais de vinte anos depois, a igreja e o Colégio de Olinda passaram por uma outra restauração, entre 1661 e 1662 – quando foi acrescentada a torre. Foi ali, nessa época, que o padre Antônio Vieira lecionou Retórica para seus discípulos.

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Em 1759, o Marquês de Pombal baniu a Companhia de Jesus de todo o Reino de Portugal, e mandou fechar todos os colégios jesuítas do Brasil, bem como as residências e missões destinadas a catequizar os indígenas. Os motivos dessa discórdia foram principalmente conflitos dos padres com colonos: os jesuítas queriam catequizar e civilizar os índios, e os colonos queriam utilizá-los como mão de obra escrava. Assim, o colégio de Olinda foi fechado, e o prédio se transformou em seminário (para formar padres seculares – ou seja, sem vinculação com ordens religiosas).

No quesito arquitetônico e artístico, a igreja é rústica. O estilo mais próximo é o maneirista, que inclusive influenciou várias outras igrejas da região – e também do outro lado do mundo, como a Igreja da Graça em Malaca (indicada acima).

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Na imagem podem-se ver o espaço que era ocupado pelo altar-mor (destruído no incêndio de 1631) e os dois altares laterais, que, talvez por estarem dentro de nichos separados, ficaram preservados do fogo. Esses dois altares são os originais, do século XVI, e provavelmente os mais antigos do Brasil.

No cemitério da igreja encontram-se os restos mortais de Dona Beatriz de Albuquerque (a esposa de Duarte Coelho).

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Sobre o orago ‘Nossa Senhora da Graça’:

Em toda a ordem de coisas, quanto mais alguém se aproxima do princípio dessa ordem, mais participa dos efeitos desse princípio (por exemplo, o que está mais perto do fogo, mais aquece). Pois, bem, Cristo é o princípio da graça: pela divindade, como verdadeiro autor, pela humanidade, e como instrumento. E assim se lê em São João: A graça e a verdade vieram por Jesus Cristo (Jo. 1, 17). Ora, a Bem-Aventurada Virgem Maria esteve extremamente próxima de Cristo, segundo a humanidade, posto que foi dEla que Cristo recebeu a natureza humana. Portanto, deve ter obtido dEle uma plenitude de graça superior à dos demais.” (São Tomás de Aquino, Suma Teologica, B.A.C., Madri, 1957, Tomo XII)

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Referências:

– Bazin, German, L’Arquitecture Religieuse Baroque au Brésil, Tome II, Paris: Librairie Plon, 1958 Catecismo da Igreja Católica

– Costa, Lucio, A arquitetura dos Jesuítas no Brasil. Arquitetura Religiosa:textos escolhidos da Revista do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 6, FAUUSP e IPHAN, 1978

– Sanceau, Elaine. Capitães do Brasil. Porto: Livraria Civilização, 1956

– VAINSENCHER, Semira Adler. Igreja de Nossa Senhora da Graça, Olinda, PE. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/

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